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7 de Agosto de 2019

Da CONCLAT à CUT (com documentário)

Documentário histórico da 1ª Conferência Nacional da Classe Trabalhadora,
a CONCLAT, produzido pela CUT e Tatu Filmes.

A primeira Conferência Nacional da Classe Trabalhadora, a Conclat, ocorreu entre os dias 21 e 23 de agosto de 1981, na Praia Grande, litoral paulista. Foi o maior encontro de militantes sindicais realizado no País até então. Um edifício ainda em construção – a colônia de férias do Sindicato dos Trabalhadores Têxteis de São Paulo –  abrigou as plenárias com os 5.036 delegados, representando 1.091 entidades sindicais de todo o Brasil.  Foi um evento importante para que, dois anos depois, surgisse a maior entidade de representação dos trabalhadores e trabalhadoras da cidade e do campo: a Central Única dos Trabalhadores, a CUT.

A ditadura militar, imposta em 1964, se enfraquecia. Vivia-se uma lenta abertura política e o País enfrentava uma grave crise econômica com salários arrochados, inflação que chegara a 110% em 1980, dívida externa na casa dos 40 bilhões de dólares, milhares de desempregados nas cidades e milhões de trabalhadores no campo sem terra para plantar. A luta pela central sindical era um desejo antigo dos movimentos de trabalhadores urbanos e rurais e o momento político parecia propício.

Desde o final da década de 1970 buscavam-se meios para a realização de um grande encontro nacional que abrisse caminho para a central. Nesse período, o movimento sindical dividia-se basicamente, em dois grandes blocos com atuação nacional: a Unidade Sindical e o Novo Sindicalismo.

O primeiro contava com lideranças ligadas ao Partido Comunista Brasileiro, o PCB, que tinha por estratégia fazer oposição moderada ao regime. O segundo reunia lideranças sindicais que atuavam de modo mais intenso, a partir da segunda metade daquela década, no combate às políticas econômicas dos militares, que tantos danos causavam aos trabalhadores, bem como lutavam por liberdade e autonomia sindical.

O Novo Sindicalismo também contava com a presença e o apoio de segmentos vinculados a Igreja Católica e de agrupamentos de extrema-esquerda. A Unidade Sindical tinha ao seu lado sindicalistas que se apoiavam na estrutura sindical vigente e alguns grupos comunistas, como o Movimento Revolucionário 8 de Outubro, o MR 8, e o Partido Comunista do Brasil, o PC do B.

Os grupos de esquerda e extrema-esquerda ligados aos dois lados atuavam na clandestinidade. Havia ainda, em ambos os campos, setores independentes.

Ver o mar pela primeira vez

Neste mesmo espaço, o Blog do CEMPI publica um documentário disponível no acervo da categoria onde apresenta imagens inusitadas e surpreendentes para quem espera ver cenas do embate político ou discursos inflamados de reivindicações trabalhistas.

O filme mostra momentos que chegam a ser comoventes: homens simples, vindos de lugares distantes, admirando, serenos e surpresos, o imenso oceano, provando da água para ver se, de fato, é salgada. Analisando a consistência da areia da praia ou pegando conchinhas e posando para fotos. Para muitos militantes sindicais que chegavam a Praia Grande, o encontro dava a chance de ver o mar pela primeira vez. Boa parte deles vinha do interior do Brasil, de regiões quentes do Norte, do Nordeste e do Centro-Oeste.

Esse início ainda mostra delegados chegando de viagem, carregando malas e bolsas, alguns com o cobertor nas costas para enfrentar o frio daquela manhã de agosto. Enfrentaram dias de viagem, utilizando mais de um meio de transporte. Alguns saíram de suas bases em barcos para pegar um ônibus atrás do outro até chegar ao destino final. Outros enfrentaram problemas mais delicados, como intimidações em barreiras policiais nas estradas e até tentativas de algumas autoridades regionais de proibir a participação dos trabalhadores em encontros que tivessem “por fim a criação de centrais sindicais”.

O primeiro dia da conferência começou com grande atraso por uma série de problemas, inclusive a falta de alojamentos para todos os delegados.  Enquanto isso, nas filas para o credenciamento, militantes históricos das lutas dos trabalhadores misturavam-se a jovens militantes e a dirigentes de pequenos sindicatos. O clima de confraternização imperou até o início dos grandes debates. Depois houve o confronto de ideias e propostas.

Lula, o “centro das atenções”

Por conta da movimentação de milhares de sindicalistas, o bairro de Cidade Ocian, em Praia Grande, conhecido na época por abrigar colônias de férias de inúmeros sindicatos, virou naqueles três dias o “bairro da Conclat”. As grandes discussões e votações nas plenárias – muitas vezes com ânimos exaltados – ocorriam entre sacos de cimento, pedras, areia, betoneiras e andaimes do prédio em construção. Já os botequins das redondezas eram os espaços preferidos para as conversas, negociações e composições políticas.

Também era grande a presença de agentes do Departamento Estadual de Ordem Política e Social, o Deops, a famigerada polícia política do regime. Disfarçados na região da colônia dos Têxteis, agentes acompanharam de perto todos os momentos da conferência. Alguns arapongas, como eram conhecidos, ainda se infiltraram entre os delegados sindicais, participando das plenárias e das reuniões das comissões de trabalho.

Um relatório elaborado por um agente do Deops sobre a Conclat, que se encontra no Arquivo Público do Estado de São Paulo, apresenta um resumo de como transcorreu a conferência. Minucioso, fala dos impasses e do “calor político” nas disputas em torno da formação da Comissão Pró-CUT, a “tese de maior destaque”.

Cita a presença de diversos “subversivos”, como Luiz Carlos Prestes, e de políticos, como Ulisses Guimarães e Teotônio Vilela, além do bispo de Santo André e futuro Cardeal-arcebispo de São Paulo, Dom Cláudio Hummes. O documento também destaca a liderança de Luiz Inácio da Silva, dizendo que Lula “foi novamente o centro das atenções” durante a conferência.

Organismo unificado do movimento sindical

A Conclat conseguiu, em um primeiro momento, concretizar a tão sonhada unidade sindical. De fato, a Comissão Nacional Pró-CUT, eleita na conferência em 23 de agosto de 1981 com mandato até agosto de 1982, e depois, em um segundo período, com mandato entre 28 de novembro de 1982 a 11 de agosto de 1983, foi o organismo unificado do movimento sindical no País.

Dali em diante, os dois blocos em que estava dividido o sindicalismo brasileiro seguiram rumos distintos. Em agosto de 1983 nasceu a Central Única dos Trabalhadores, a CUT, e em março de 1986 a Central Geral dos Trabalhadores, a CGT. O País veria depois greves gerais de alcance nacional, uma nova Constituição e a eleição, pela primeira vez em nossa história, de um operário, personagem do filme 1º Conclat, para governar o Brasil.

Cartaz de divulgação da 1ª Conferência Nacional da Classe Trabalhadora, a Conclat,
de 21 a 23 de agosto de 1981 na Praia Grande, litoral paulista.

 

CEMPI – Centro de Memória, Pesquisa e Informação do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC

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