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16 de Janeiro de 2009 | Notícias | Saúde

Saúde - Medo

A plenária caminhava para o seu final. Minha atenção, no entanto, voltava-se a todo instante para aquela companheira sentada na primeira fila. Apesar da aparência normal, seus ombros caídos e o tronco curvado,
comum nos derrotados, contrastavam com seu rosto.
Nele, a expressão de medo, quase pânico, justificava o amassar nervoso das mãos, sobre o envelope plástico contendo exames médicos.
Pouco depois ela é a primeira a entrar na minha sala. Agora o rosto e o olhar expressavam com humildade o desejo de que as minhas palavras a libertassem daquele pesadelo que estava vivendo.
Ela confirmou. Estava sendo demitida após vinte e três anos de trabalho e tinha esperança de reverter a demissão por estar doente.
Pedi que sentasse e me falasse do seu problema.
-Começou há mais de oito anos. Uma dor no ombro direito que foi se agravando, passou também para o ombro esquerdo e apesar de todo tratamento não melhora, disse ela, e continuou:
-Agora sinto que perdi a força nos braços e só trabalho às custas de remédio para a dor. Meus exames estão aqui, completou. Pedi para vê-los e notei sua dificuldade em sustentar o peso do envelope para retirá-los, o que só conseguiu após apóia-lo na mesa.
Ao abrir seus exames, percebi a gravidade do caso.
Havia rupturas de tendões nos dois ombros, além de calcificações e sinais inflamatórios crônicos.
Perguntei então:
-O que você faz no seu trabalho?
-Rodo o tempo todo numa célula de montagem de pequenos componentes de autopeças. Fico em pé rodando o dia todo e minhas mãos e meus braços têm de fazer coisas sem parar. Pegar, apertar girar e puxar. Uso ferramentas elétricas e outras manuais. No fim do dia estou estourada.
-E você não veio antes por quê?, perguntei.
-Eu sempre tive medo de que meu chefe achasse ruim. O pessoal da representação me disse para passar no médico do Sindicato, mas eu tinha medo.
Após dizer-lhe que seu caso estava comprovado e que aguardasse, pois, havia grande chance de ser reintegrada na negociação com a empresa, ela sorriu, apertou minha mão, agradeceu e pegando seus documentos já ia saindo, quando perguntou:
-Será que se eu for reintegrada e o chefe ficar sabendo que eu estive aqui, ele não vai ficar chateado comigo? Eu sorri e ela se foi com o mesmo semblante de pânico.

Departamento de Saúde do Trabalhador e Meio Ambiente

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