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15 de Setembro de 2010 | Notícias | Saúde

Brasil ´salva´ 3 milhões de dentes em seis anos

Parceria entre União e municípios, Brasil Sorridente coloca saúde bucal na vida dos brasileiros e resgata autoestima

O Brasil salvou, em média, um dente a cada um minuto e meio desde 2004. A ação integrada de saúde pública poupou três milhões de extrações ao longo dos últimos seis anos, revertendo um quadro desolador. Pesquisas do Ministério da Saúde mostram que, até então, apenas 22 milhões de brasileiros tinham acesso a saúde bucal pelo sistema público. Entre idosos, 75% não tinham nenhum dente na boca – no total, 25 milhões de brasileiros estavam nesta situação.

O marco da virada é o programa Brasil Sorridente, desenvolvido em 2004 pelo governo federal e que hoje chega a 85% dos municípios brasileiros. A necessidade de investimento na área está ligada aos efeitos da precariedade de saúde bucal na vida das pessoas. Os problemas estendem-se da alimentação à busca de emprego, incluindo o risco de contrair algumas doenças.

Maria Ercília de Araujo, professora titular de Saúde Coletiva da Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo, lembra que essa é a primeira política pública de saúde bucal da história do Brasil. Além de prevista no papel, há dotação orçamentária condizente com o tamanho da questão. Em 2009, R$ 643 milhões foram destinados à saúde bucal.

“O Brasil Sorridente prioriza algumas ações que, no meu ponto de vista, são fundamentais. A primeira é a fluoretação da água, que sem dúvida reduz ocorrência de cáries. A segunda é um avanço na ampliação da assistência além da questão do atendimento primário”, afirma Maria Ercília. 

Xodó de Lula
O Brasil Sorridente é um programa que recebe atenção especial do presidente Lula, que faz citações recorrentes à importância da saúde bucal. Os discursos, quase sempre guiados por tom de brincadeira, lembram como ter dentes da boca é importante para a autoestima. “Quando eu pensei no programa Brasil Sorridente, é porque eu estava inconformado de andar por este interior, de andar por este país, e encontrar meninas de 15 anos de idade, meninos de 16 anos de idade, de 17 anos de idade, já sem poder sorrir porque não tinham os dentes da frente, porque não tinham água tratada, porque os dentes ficavam cariados e eram obrigados a extrair, porque pobre não tinha tratamento de canal. Pobre não tinha ortodontia, pobre só podia arrancar dente”, afirmou em 2008, durante cerimônia em Diadema, na Grande São Paulo.

A aplicação de fluor na água tratada foi ampliada e chega a 65% dos municípios brasileiros, ante 40% de seis anos atrás, segundo dados oficiais. O atendimento secundário foi desenvolvido por meio dos Centros de Especialidades Odontológicas (CEOs). Antes, as Unidades Básicas de Saúde (UBSs) davam o cuidado primário, como limpeza e obturação, mas, daí por diante, tudo corria por conta do paciente. Havia duas alternativas: pagar por um tratamento caro ou aguentar o problema até a queda dos dentes. Agora, havendo necessidade de tratamento especializado, o paciente é encaminhado para um CEO.

Eliana Soares de Souza fez um tratamento de gengiva na unidade de São Bernardo do Campo, no ABC Paulista. Até há pouco tempo ela morava em um município que não aderiu ao programa, o que significava problema na boca e no orçamento. “Lá tratavam só o básico. Se precisasse do serviço especializado, era muito caro”, lembra.

Algumas cidades não aderiram ao programa, mas a expansão nos últimos anos é notória. O Brasil tinha, antes do Brasil Sorridente, pouco mais de quatro mil equipes de saúde bucal, um quinto das atuais 19 mil. São 838 CEOs e 530 laboratórios de próteses dentárias.

O coordenador de Saúde Bucal do Ministério da Saúde, Gilberto Pucca, lembra que nem mesmo a distribuição de kits com escova e pasta de dente era feita gratuitamente, o que significava que 50% dos brasileiros não tinham cuidado regular na prevenção. “Ter dentes na boca é uma questão mínima de cidadania. Exatamente por isso que se transformou o Brasil num país com muitas pessoas sem dentes e poucas pessoas com dentes. A saúde bucal era considerada como supérflua. Quem tinha dinheiro podia comer, podia sorrir. Quem não tinha, infelizmente, acabava ou ficando sem dentes ou a boca ficando sem tratamento”, pondera.

Maria Aparecida Silva tem um problema na parte interior da boca que vai demandar um tratamento mais prolongado. Ela passou pela terceira consulta em um mês e tem mais alguns encontros com a dentista no CEO de São Bernardo antes de ser encaminhada ao hospital no qual são feitas as cirurgias. Neste caso, a prefeitura antecipou-se àquele que é um dos desafios atuais do Brasil Sorridente: o atendimento hospitalar.

Foi em junho que o programa passou a fazer trabalhos deste gênero, ainda muito voltado aos pacientes especiais, que precisam de anestesia geral para um tratamento. “É um avanço muito significativo porque são praticamente mais dez milhões de pessoas no Sistema Único de Saúde que passam a ser atendidas e que antes tinham de pagar por esse atendimento. E é claro que ficava muito caro”, defende Pucca.

“Parece que está pagando”
“Atendem a gente muito bem. Parece que (você) está pagando pelo tratamento”, complementa Maria Aparecida. Ela expressa um valor cultural estabelecido nas últimas décadas de que o serviço público é ruim, em oposição ao privado, sinônimo de qualidade. Aqueles que tinham condições financeiras passaram, então, a procurar por planos particulares de saúde geral e de saúde bucal.

“Essa população, que deveria exigir um melhor serviço, não está fazendo isso. Paga plano de saúde e exige que esses planos sejam mais baratos, em vez de demandar qualidade do sistema público. Falta esse controle social exigindo ampliação”, lamenta Maria Alice Pessanha de Carvalho, pesquisadora-adjunta da Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Osvaldo Cruz (Fiocruz).

Ailton Diogo Rodrigues, presidente do Conselho Federal de Odontologia, lembra que há uma questão cultural por trás da negativa em fornecer saúde bucal à população. Ele aponta que é preciso transformar o Brasil Sorridente em uma política de Estado, que não será deixada de lado devido a mudanças de governo.

“A população teve melhor acesso ao tratamento dentário e a oferta de serviços aumentou. Isso trouxe ganho muito grande para a população. E um grande avanço foi a valorização do cirurgião-dentista”, comemora. Falta garantir que os municípios que ainda não aderiram ao programa, em torno de 15% do total, mudem de rumo e adotem a saúde bucal como política pública.

“É tão bom o Brasil Sorridente que a classe média está usando, e é bom usar!”, constatou o presidente Lula em maio deste ano. Aumentar o público atendido é um dos desafios que estão na cabeça de Gilberto Pucca. O Ministério da Saúde espera chegar a 1.700 centros especializados no próximo ano e quer, em mais uma década e meia, zerar a demanda por prótese dentária total. O desafio passa por universalizar os cuidados preventivos.

Outro dos desafios é tornar permanente a distribuição de kits de escovação, como ocorre com preservativos e pílulas anticoncepcionais. Em outra frente, o Ministério da Saúde espera aumentar o número de equipes, equiparando à quantidade vista no Programa de Saúde da Família, que hoje tem mais de 30 mil grupos de trabalho.

Da Rede Brasil Atual (João Peres)

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