PESQUISA / SUGEST�ES
RECEBA INFORMAÇÕES
27 de Novembro de 2014 | Notícias | Mídia

´Mídia tem responsabilidade´, diz Secretaria de Políticas para Mulheres

Ato público pelo fim da mercantilização do corpo feminino. Padrão midiático contribui para manter violência contra as mulheres

Entre 2003 e 2014, número de serviços especializados no atendimento às vítimas de violência aumentou 306%. Só neste ano, o registro de ligações diárias para a Central 180 aumentou em 8 mil

A mídia tem grande responsabilidade sobre os casos de violência contra a mulher, em principal por transmitir a ideia de que o corpo feminino é um objeto que pode estar à disposição do prazer masculino. A observação é da secretária-adjunta de Enfrentamento à Violência contra as Mulheres da Secretaria de Políticas para Mulheres (SPM), Rosângela Rigo.

“Quando você mercantiliza o corpo da mulher você a transforma em um objeto de venda e de desejo, com o qual se pode fazer o que quiser. A mídia tem grande papel nessa violação de direitos. Ela estimula de forma indireta a violência física e sexual. À medida que a mídia começar a tratar a mulher e seu corpo com respeito vai também transformar essa visão estigmatizada da mulher”, afirmou na última terça-feira (25) em entrevista à RBA, por ocasião do Dia Internacional de Enfrentamento à Violência contra Mulher.

De acordo com a secretária-adjunta, o governo federal planeja implementar ações para estimular as redes de comunicação a repensar a forma como tratam a mulher e como noticiam os casos de violência. “Dependendo da forma como fazem isso, podem contribuir mais ou menos para a conquista de autonomia das mulheres ou para a continuidade da violência”, afirma.

Entre 2003 e 2014 o número de serviços especializados no atendimento às mulheres vítimas de violência aumentou 306%, saltando de 332 unidades para 1.007, em todo o país. Só neste ano, quando a Central 180 deixou de ser só um canal para obter informações e passou também a receber denúncias, o número de ligações diárias aumentou em 8 mil.

Quais as principais ações do governo brasileiro para enfrentar a violência contra a mulher? Como a sra. avalia seus resultados?

O governo brasileiro vem investindo nos últimos 12 anos na implementação de políticas para as mulheres. Até então tínhamos ações específicas, mas quando a Secretaria de Política para as Mulheres foi criada, com status de ministério, é que pudemos articular uma série de políticas, uma delas a própria Política Nacional de Enfrentamento da Violência Contra as Mulheres. Uma das grandes conquistas foi a implementação, em 2007, do Pacto Nacional de Enfrentamento da Violência Contra as Mulheres, em parceria com estados e municípios e com apoio financeiro para fortalecer uma rede de serviços especializados, tendo como base a aplicação da Lei Maria da Penha.

Em 25 de novembro de 1960, quatro irmãs da República Dominicana foram mortas por lutar contra o governo do ditador Rafael Trujillo. Em sua memória, a data foi definida pela ONU Dia Internacional de Combate à Violência Contra a Mulher

Tivemos um aumento de 306% no número de serviços especializados de atendimento à violência contra as mulheres, como os Centros Especializados de Atendimento às Mulheres, os juizados especializados em violência familiar e violência doméstica, as defensorias públicas e ministérios públicos especializados. Em 2003 eram 332 unidades de atendimento desses serviços em todo o país, e chegamos a 2014 com 1.007 unidades. E trabalhamos sempre com três pilares importantes: ações de prevenção à violência contra as mulheres, atendimento integral e humanizado das vítimas e o combate à impunidade dos agressores.

Esse crescimento é fruto também da Lei Maria da Penha, que tipificou a violência contra as mulheres como crime. Hoje, pelas pesquisas, 98% da população conhecem ou já ouviram falar da lei. A sociedade começa a discutir e a pautar a violência contra mulher de outra forma.

Quais os principais gargalos que ainda persistem? Por que é difícil alcançá-los?

Uma questão é ter um orçamento cada vez maior. Estamos discutindo no Congresso Nacional um projeto que cria um fundo nacional de enfrentamento da violência contra a mulher para, a exemplo de outros fundos, trabalhar junto com estados e municípios. Com a Lei Maria da Penha, o sistema de Justiça tem um envolvimento maior na questão, mas ainda é preciso aprofundar. Outro gargalo é na segurança pública, que precisa aumentar o número de delegacias especializadas.Temos também muita dificuldade em mudar valores e conceitos sobre violência contra a mulher.

Temos uma parceria com a saúde para ampliar os serviços especializados de atendimento contra as mulheres, mastemos dificuldade de conseguir dados e informações precisas de violência. É preciso organizar um sistema de informação e trabalhar de forma articulada com os demais dados que temos, seja através da notificação compulsória nos serviços de saúde ou dos dados das mortes e assassinatos de mulheres.

Sobre os dados, a secretaria faz o levantamento do número de ocorrências de crimes contra mulher? Há uma tendência de queda ou de crescimento?

Ao acompanhar todos os dados da segurança pública ou a vigilância temos claro que a notificação temaumentado. Hoje, como temos mais serviços e maior acolhimento das mulheres, o número de denúncias que chega ao poder público é maior, mas isso não quer dizer que houve um aumento dos casos de violência, mas um aumento da notificação, dos boletins de ocorrência e da quantidade de informações que chegam ao poder público. Isso representa um ganho porque o Estado brasileiro assume como responsabilidade atender essas mulheres, que têm hoje mais confiança em denunciar ou buscar serviços públicos nas unidades de saúde ou nas delegacias especializadas. Desde a criação da Central 180, em 2005, tivemos mais de 3,5 milhões de ligações, porém, neste ano quando ela se transformou também em um canal de denúncia, tivemos um aumento de 8 mil ligações por dia para o atendimento às mulheres vítimas de violência.

Os casos brasileiros possuem alguma característica comum? Se concentram em um determinado grupo social ou determinada faixa etária?

A violência contra a mulher não tem cor nem classe. Ela perpassa todas as esferas sociais, porque estamos trabalhando com relações desiguais de poder entre homens e mulheres. Pela nossa cultura machista e patriarcal, os homens ainda se sentem donos das mulheres, mesmo que as mulheres tenham uma profissão e autonomia. Nossa cultura reafirma os papéis desiguais entre homens e mulheres.

Entre as mulheres, de crianças até a idade de 39 anos, a violência de gênero é o principal motivo que as leva ao serviço de saúde. Na terceira idade a violência contra as mulheres é a terceira causa de violações de direitos. Em todas as fases da vida a mulher sofre algum tipo de violação. E lembrando que a violência doméstica é a de maior incidência. Ela nem sempre é física, muitas vezes é uma violência psicológica, com desqualificação e xingamentos, e com a detenção de documentos.

Quais são os principais desafios no combate à violência contra a mulher?

Construir uma sociedade igualitária, reconhecendo que todos têm os mesmos direitos. Temos de combater o valor ainda muito presente que alguém tem poder sobre a vida das mulheres. Por isso, a SPM tem no programa “Mulher, Viver sem Violência” as campanhas continuadas para termos um diálogo permanente com a sociedade e para colocar qual a responsabilidade do Estado na construção de relações igualitárias. É preciso que a sociedade reconheça que esse tipo de violência é um crime e uma violação de direitos.

Na educação, atuamos nas discussões sobre diversidade na escola, com uma discussão de relações sociais de gênero. A SPM, na sua relação com as secretarias estaduais de educação, tem desenvolvido ações para que os profissionais da educação sejam cada vez mais qualificados para debater esse tema e desenvolver ações de prevenção, trabalhando a desconstrução do papel social da mulher. Menino pode brincar de boneca e menina pode jogar futebol. Homens e mulheres podem ser o que eles desejarem ser.

Qual a relação entre a mercantilização da mulher, tão fomentada pela mídia, e os casos de violência?

Quando você mercantiliza o corpo da mulher você transforma a mulher em um objeto de venda e de desejo, que você pode coisificar e fazer o que quiser. A mídia tem grande papel nessa violação de direitos. Ela estimula de forma indireta a violência física e sexual. A medida que a mídia começar a tratar a mulher e seu corpo com respeito vai também transformar essa visão estigmatizada da mulher.

A SPM tem, em vários momentos, discutido o papel da mídia na construção da imagem da mulher. Já realizamos seminários sobre mulher e mídia. Queremos estimular os sistemas de comunicação para que façam sua parte, seja por campanhas ou para que repensem seu papel e a maneira como noticiam casos de violência. Dependendo da forma, podem contribuir mais ou menos para a conquista de autonomia das mulheres ou para a continuidade da violência.

Que outras concepções históricas sobre o papel da mulher na sociedade acabam por fomentar os casos de violência?

Existe uma divisão sexual dos papéis na sociedade, em que o homem pode determinadas coisas e a mulher não. O homem que exercita sua sexualidade de forma mais livre não é desqualificado, mas a mulher é. Tudo isso constrói o cenário da violação de direitos. Todo histórico de uma sociedade em que a mulher não podia votar e tinha que usar o nome do marido marca a ideia de que as mulheres são propriedade dos homens. A partir daí, se trata o corpo da mulher de forma coisificada ou se diz para a companheira que ela não pode trabalhar ou estudar. São conceitos que temos que mudar para construir uma sociedade onde homens e mulheres possam escolher suas profissões, desenvolver sua capacidade intelectual e usufruir de direitos iguais, respeitando suas especificidades, mas de maneira que nenhuma diferença gere desigualdade.

Da Rede Brasil Atual 

00
comentários para esta matériaCOMENTAR
Sindicato dos Metalúrgicos do ABC
Rua João Basso, 231 - CEP 09721-100
Centro - São Bernardo do Campo/SP
TRIBUNA METALÚRGICA


VEJA TODAS AS EDIÇÕES
Buscar por Nº: