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7 de Fevereiro de 2019 | Notícias

Em reunião com vice-presidente, Metalúrgicos do ABC debatem futuro da indústria nacional e do emprego

Em audiência com o vice-presidente da República, Hamilton Mourão, o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Wagner Santana, entregou documento com posicionamento da entidade em relação ao setor industrial e à valorização do trabalho e do emprego. Abaixo a íntegra do documento.

São Bernardo do Campo, 07 de fevereiro de 2019.

Ao

Excelentíssimo Senhor Vice-Presidente da República Antônio Hamilton Martins Mourão

Um alerta ao presente e ao futuro

O Sindicato dos Metalúrgicos do ABC chega aos 60 anos no próximo mês de maio. Nesse período, tornou-se uma referência, nacional e internacional, no que se refere ao mundo do trabalho e à defesa intransigente dos valores democráticos. A entidade já viveu inúmeros desafios, e o momento atual apresenta uma série de questões pela frente, com importantes implicações para o presente e o futuro. Nesse documento, tratamos especificamente da questão industrial, da valorização e centralidade do trabalho, da importância destas questões para o desenvolvimento do País alinhado com um projeto de combate às desigualdades e à pobreza.

Iniciemos pela atual condição que temos no campo da produção. A atividade industrial no país, depois de uma longa trajetória de crescimento iniciada quase um século atrás, passou pela crise dos anos 1990, viveu uma importante recuperação nos anos 2000, mas atravessa no período recente uma grave e intensa retração.

O Brasil chegou a ocupar a sexta posição entre as maiores economias industriais do planeta. No entanto, a partir de 2014, o Brasil caiu rapidamente de posição ficando em nono lugar no ranking mundial das maiores economias industriais em 2017. Saímos de uma participação no Valor Adicionado Industrial Mundial, de 2,7% % em 2010 para 2% em 2017. A recuperação dos últimos dois anos foi lenta em todas as categorias de produção industrial e insuficiente para que se retornasse ao patamar anterior a 2014, em todas as categorias de produção industrial. A indústria nacional registra uma alta capacidade ociosa e é fortemente atingida pela crescente importação de partes, peças e produtos completos, desarticulando elos importantes de cadeias produtivas ainda presentes no País.

Uma das implicações mais graves desse processo é a rápida eliminação dos empregos industriais gerados entre 1999 e 2013, com a perda de 1,1 milhão de postos de trabalho a partir de 2014, e de modo acelerado desde 2015. Essa eliminação deempregos afeta significativamente as principais cidades e regiões industrializadas do país, com forte contribuição para a crise social e o desequilíbrio fiscal de inúmeros Estados e municípios.

Mesmo no caso de segmentos que apresentaram recuperação ligeiramente superior, como o setor metal-mecânico, a geração de empregos foi rigorosamente nula no biênio 2017/18, concluindo-se o período com um saldo abaixo do registrado em 2016, o menor verificado no período recente. Em síntese, a recente recuperação desse segmento não gerou empregos na economia brasileira. E esse cenário pode continuar, a depender das políticas adotadas daqui em diante.

A complexidade da situação é evidentemente mais ampla, considerando-se a grande diversidade e heterogeneidade da indústria presente no Brasil, mas algumas ações transversais nos parecem críticas e urgentes: uma política industrial que contribua efetivamente com o desenvolvimento do País, articulada com as necessidades de superação dos gargalos econômicos e sociais, de modo a distribuir seus ganhos entre toda a sociedade e posicionando o Brasil entre as principais economias industriais do planeta.

Essa política deve ser organizada tendo como objetivos o readensamento das cadeias produtivas nacionais e da promoção de segmentos mais sofisticados, da atualização do Parque Industrial, de ganhos de Inovação e introdução de novas tecnologias, com uma indústria diversificada e que resulte no aumento da participação da indústria na geração de riqueza nacional, que aumente a produtividade com a melhora da estrutura produtiva, que colaborem com a redução das desigualdades e elevação dos padrões de vida da população, de forma sustentável e com preservação do meio ambiente, visando o desenvolvimento regional e a criação de empregos de qualidade.

A indústria, enfim, deve ser o centro dinâmico do desenvolvimento nacional. Dentre todas as atividades econômicas, é na indústria (considerado o segmento extrativo, de transformação e de construção) onde se localiza as atividades com maior potencial  de desdobramento, de alavancar outros setores da atividade econômica e com maior geração de riqueza. Não existem, na experiência mundial, países desenvolvidos e populosos sem uma indústria forte e os investimentos, inclusive públicos, em curso nas grandes potências mundiais neste setor reforçam este papel.

A centralidade do trabalho para a ampla maioria da população brasileira é outro  tema relevante e que nos coloca em alerta. A reforma trabalhista e a discussão a seu respeito colocou em evidencia mais uma vez um ajuste considerando o custo do trabalho como alvo. A reforma trabalhista, ao precarizar as condições de trabalho e reduzir a média salarial, tem efeitos negativos para o desenvolvimento econômico sustentável ao longo do tempo e para a redução das desigualdades. Com uma mão  de obra pauperizada, há ainda uma redução do mercado consumidor interno, importante elemento para superação do cenário econômico atual.

O Sindicato dos Metalúrgicos do ABC se destacou, ao longo de sua trajetória e particularmente ao longo das ultimas quatro décadas, por sua organização, capacidade de negociação e presença nos locais de trabalho. Isso teve implicações relevantes nas negociações para soluções que ampliam o emprego, os direitos dos trabalhadores e o desenvolvimento econômico e social em nossa região.

A elevação do padrão de relações do trabalho, assim entendemos, deve ser um objetivo claro para o desenvolvimento nacional e a garantia de representatividade sindical autônoma e qualificada deve constituir um mecanismo fundamental para o desenvolvimento nacional. Torna-se essencial reconhecer a centralidade do trabalho e buscar sua crescente valorização, com a garantia de direitos, com o fortalecimento da representação sindical e da negociação coletiva nos diversos níveis.

Por fim registramos um último alerta referente à desigualdade e à pobreza no País, que cresceram assustadoramente durante a crise econômica. Infelizmente uma série de medidas tomadas, como a PEC dos gastos públicos e o decorrente desmonte de diversas políticas públicas, contribui para ampliar esse cenário. Faz-se urgente, portanto, considerar e fortalecer os mecanismos de proteção social e de combate à fome e à pobreza no País.

Reiteramos nossos alertas ao presente a ao futuro. Reiteramos que este Sindicato sempre estará à disposição para o diálogo, para debater ações que promovam o desenvolvimento do Brasil, desde que se paute pela justiça social e pelo espírito público, que devem permear as relações entre o governo e os movimentos sociais em um Estado democrático de direito.

 

Wagner Santana

Presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC

 

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