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6 de Dezembro de 2019 | Notícias

Editorial Retrospectiva - 2019: O ano do Sufoco

Foto: Adonis Guerra

Começamos este ano com o coração apertado. Um mau presságio para o que seria 2019 em relação aos ataques aos trabalhadores e à sociedade. Um ano em que o estímulo ao ódio, à violência e à intolerância continuou sendo a estratégia governamental para manter a população dividida.

Em nossa categoria, iniciamos com o anúncio do fechamento da empresa Dura Automotive, em Rio Grande da Serra. Um grande desafio a ser vencido, que já nos alertava para uma luta ainda mais complicada que viria em fevereiro, com o anúncio de fechamento da Ford. Conseguimos reverter a situação na Dura. Na Ford, ainda está sendo para nós um ano de luta para conseguir manter a unidade fabril e parte dos empregos.

Ainda em janeiro assistimos estarrecidos a uma tragédia criminosa, causada por puro desleixo e pelo interesse único do lucro – o desastre de Brumadinho (MG). A mesma ameaça ainda paira sob milhares de trabalhadores do setor da mineração e população vizinha, que correm risco em vários locais do País. Também vimos aumentar os casos de violência contra a mulher e feminicídio. Nossas companheiras e companheiros metalúrgicos (as) foram às ruas juntos, em março, no Dia Internacional da Mulher, para defender a igualdade de direitos e lutar contra a violência de gênero.

Já no primeiro trimestre, o governo federal apostava todas as suas fichas na reforma da Previdência, utilizando-se dos mesmos métodos que hipocritamente dizia combater - a liberação de bilhões de reais em emendas aos parlamentares, para “convencê-los” a retirar dos trabalhadores o sagrado direito a uma aposentadoria digna. Também nesse período iniciamos as discussões para a campanha salarial, sabendo que enfrentaríamos pela primeira vez a reforma Trabalhista já implementada em totalidade e a reforma da Previdência como dificultadores da negociação. Foi o que acabou acontecendo. Conseguimos fechar nossa campanha, em alguns grupos, só em novembro, depois de muita luta.

Apesar de um primeiro semestre extremamente complicado, ainda conseguimos manter e retomar algumas tradições. Fizemos o “Arraiá dos Metalúrgicos” em Diadema e marcamos o Dia do Rock com um festival que encerrou as comemorações do aniversário de 60 anos do nosso Sindicato. Pouco antes, no 1º de Maio, em procissão, pedimos força a São José Operário para resistir a tantos ataques.

Em junho fizemos junto com as centrais sindicais o Dia Nacional de Luta contra a reforma da Previdência. Nossa categoria parou as fábricas, foi firme e resistente, reforçando que os Metalúrgicos do ABC não concordam com essa medida que desampara nossos velhos e compromete as próximas gerações.

Realizamos o 9º Congresso do Sindicato, em que reafirmamos nossa pauta de luta e os princípios de solidariedade e democracia que orientam as ações da direção no trabalho do dia-a-dia. Companheiras metalúrgicas retornaram às ruas para participar da Marcha das Margaridas, maior encontro de mulheres em luta por seus direitos do mundo. Surpresos e felizes ficamos ao ver milhões de estudantes saírem às ruas em defesa da educação pública de qualidade. O Sindicato integrou as manifestações, sabendo da importância do tema.

Renovamos acordos de garantia de emprego na Volks e na Mercedes, dando tranquilidade a milhares de trabalhadores diretos e àqueles que dependem da produção destas empresas. Também fizemos, infelizmente, a última assembleia na Ford, selando o encerramento anunciado em fevereiro.

Ao longo de 2019, foi tema de debate em todo País os vários crimes ambientais facilitados pela política desse governo fascista, que criminaliza movimentos sociais de defesa do meio ambiente, reduz verbas para fiscalização e libera madeireiros, grileiros e mineradores criminosos que insistem em destruir nossos recursos naturais. Assistimos à queimada da Amazônia e ao desastre até hoje não explicado e nem resolvido do vazamento de petróleo nas praias do litoral brasileiro. Uma demonstração do enorme desapreço por nosso lindo País.

No momento em que escrevemos este texto, somos informados sobre um triste exemplo da brutalidade policial em nosso Estado, assim como tem acontecido em outras regiões. Uma ação policial covarde deixou nove jovens mortos em Paraisópolis. O caso confirma os números de aumento da letalidade policial por parte de corporações que se acham no direito de tratar com desprezo a vida da população mais pobre, incentivadas por um governo que defende esse tipo de repressão e tem a arma como símbolo.

Basta lembrar que o número escolhido pelo atual presidente para seu novo partido é 38, referência ao calibre de um revólver.

Quase no final do ano, recebemos Lula, livre, no nosso Sindicato. Dias depois, confirmamos a perseguição sem precedentes que essa liderança – e tudo que ela representa – sofre por parte da judiciário brasileiro.  Na ânsia de atingi-lo, o Tribunal de Porto Alegre (TRF-4) julga Lula em tempo recorde, deixando mais de 1.900 recursos para trás, e o condena em segunda instância, contrariando, inclusive, o entendimento do Superior Tribunal Federal (STF).

Encerramos o ano ainda lutando contra dois projetos de lei que farão da relação de trabalho nesse País “terra arrasada”. Um deles é a medida provisória que altera a Constituição e cria a “Carteira de Trabalho Verde e Amarela” – suprimindo direitos e criando um “Bolsa Patrão” com dinheiro retirado dos nossos jovens desempregados e desesperados por um primeiro emprego.

O outro é o PL 6159/19, que joga de novo para as esquinas e faróis desse País as pessoas com deficiência, tirando-lhes a oportunidade de um trabalho digno ao acabar com a obrigação das empresas de contratar PCDs. Ao arrasar com a política de cotas, este projeto atinge de forma cruel este grupo, talvez o mais dependente de políticas sociais voltadas para suas condições. As pessoas com deficiência só querem acesso ao trabalho digno, como qualquer trabalhador, o que lhes será negado pelo Estado.

Atravessamos tudo isso juntos. A solidariedade foi marca constante tanto nas vitórias como nas derrotas. Sabemos e aprendemos na luta que só unidos somos capazes de resistir aos ataques e às iniciativas que visam o empobrecimento financeiro e intelectual do nosso povo. Agradeço por tudo e desejo um excelente Natal e Ano Novo a todos os companheiros e companheiras. É momento de descansar e comemorar a vida ao lado daqueles que amamos, certos de que voltaremos ainda mais fortes em 2020. Temos ainda muitos desafios pela frente!

Wagner Santana

Presidente dos Metalúrgicos do ABC 

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