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9 de Dezembro de 2019 | Notícias

Sindicato debate as novas formas de trabalho e a precarização

Fotos: Adonis Guerra

Na manhã de sábado, dia 7, os Metalúrgicos do ABC realizaram a exibição do filme “GIG - a uberização do trabalho”, no Centro de Formação Celso Daniel, ao lado da Sede. Na sequência os participantes debateram as novas formas de trabalho e a precarização com o diretor do documentário, Carlos Juliano Barros, o procurador do Trabalho, Renan Bernardi Kalil, e a trabalhadora por aplicativo, Íris Apolinário (confira trechos abaixo).

A mediação foi feita pelo integrante do Coletivo e CSE na Scania, Rafael Fuke Jobb. “A retirada de direitos é enorme hoje no país e cada vez mais a tendência é piorar. Não tem 13º salário nem benefícios trabalhistas. As pessoas estão numa falsa ideologia de ser um empresário, de pensar ‘eu vou controlar, fazer meu horário e a minha renda’. E não é bem por ai”, afirmou.

A atividade encerrou o ciclo de debates: “O ABC da Indústria 4.0”, promovido pelo Coletivo de Políticas Industriais do Sindicato, que contou com seis encontros no ano.

O diretor executivo do Sindicato, Wellington Messias Damasceno, ressaltou que os debates trataram da Indústria 4.0 e de temas específicos que dizem respeito diretamente aos trabalhadores e à categoria.

“Finalizamos o ciclo com a apresentação do filme que retrata a realidade de como as novas tecnologias estão sendo utilizadas, não em benefício dos trabalhadores, mas com o intuito de precarizar as relações de trabalho com o ar de modernidade que, na verdade, busca iludir a sociedade”, explicou.

“Com o acumulado que o debate nos trouxe, temos condições de projetar para o ano que vem ações mais estruturadas, inclusive com a construção de uma pauta para apresentar à sociedade e também focar em oficinas mais específicas para debater o tema, conforme aprovamos no 9º Congresso da categoria”, reforçou.

 

Debatedores:

“É inegável que os aplicativos facilitaram a vida de muita gente. Se fizer uma breve pesquisa aqui, muitos usam aplicativo para se deslocar, pedir comida. Mas também há uma série de questões que começaram recentemente vir à tona no Brasil.

As plataformas todas se apresentam como meras intermediadoras de trabalho, que conectam o prestador de serviços ao consumidor final e se eximem de toda responsabilidade sobre a prestação de serviços em si. Mas vão muito além da intermediação. A gente sabe que trabalhadores por aplicativo fazem 10h, 12h por dia. Se recusar trabalho, sofrem punições.

E tem a disputa ideológica por trás dos aplicativos, que é a discussão de projeto de sociedade. O problema é que está todo mundo sendo arrastado para essa corrida rumo ao fundo do poço. Uma minoria de pessoas ganha bem em trabalhos criativos e interessantes. E a maioria esmagadora está se virando nos trinta pra pagar o dia a dia. Estamos vendo, a passos largos, a morte da classe média do Brasil.

Meninos que estão fazendo entrega de bicicleta rodam 100 km dia, nem voltam pra casa, dormem na rua. Essa configuração do mercado de trabalho que estamos caminhando. O momento é muito complexo, de desemprego batendo, e esse debate também é complexo”, Carlos Juliano Barros, diretor do documentário.

 

“O sistema diz assim: ‘Você nasceu pobre, então você precisa estudar para ter um emprego, uma profissão’. Aí você estuda, vai para a faculdade, estuda e se forma com muita dificuldade, só que não tem emprego. Então esse aplicativo acabou sendo uma saída para ajudar nos custos. Eu moro numa região de São Bernardo extremamente precária, considerada área rural. Ou você anda em torno de 4 km a pé no meio do mato ou tem carro. É necessidade. Meu marido e eu compramos carro e tivemos a ideia de ser motorista de aplicativo para pagar o carro.

Tem os seus riscos. Tem dia que ganha e tem dia que não. O filme mostra a realidade, percebo que tenho mais gastos com manutenção, vai fazer um ano que dirijo por aplicativo e não vejo muito resultado, não consigo ver esse valor.

Há um grande risco de enviar para lugares de risco. Teve uma morte de motorista em Diadema e me chamou muita atenção porque já entrei naquela área.

O aplicativo acaba sendo uma saída porque o mercado está fechado. Tenho faculdade de enfermagem, duas especializações e não consigo entrar no mercado de trabalho”, Íris Apolinário, trabalhadora por aplicativo.

 

“Temos que pensar que tipo de sociedade e trabalho vamos construir”

Durante o debate o procurador do Trabalho, dr. Renan Bernardi Kalil, apresentou dados de sua pesquisa, realizada com 102 motoristas de aplicativo de São Paulo. Nela o procurador desenhou o cenário dos trabalhadores por aplicativo.

“Os trabalhadores têm uma carga horária muito elevada, mais de 53% dos motoristas de aplicativo dirigem mais de 10 horas por dia. E quando se olha para os trabalhadores que têm o aplicativo como principal fonte de renda mais de 60% trabalham mais de 10 horas diárias.  Quase 70% trabalham mais de cinco dias por semana e mais de 60% comprometeram a renda própria para trabalhar com o aplicativo”, relatou.

Kalil lembrou que desde o governo Temer, com o debate da reforma Trabalhista, o empresariado brasileiro tem apontado que o direito do trabalho e as relações trabalhistas precisam passar por mudanças, mas sem apresentar saídas para os trabalhadores.

“As mudanças no mundo do trabalho e as reformas vêm acontecendo muito por uma agenda do que o empresariado acha que deve ser daqui para frente. O filme mostrou que todo o desenho da plataforma permite que haja um controle do que o trabalhador vai fazer sem a imagem tradicional de um gerente que temos nas fábricas”, afirmou.

O procurador também disse que os trabalhadores não estão participando diretamente dos debates e formulações dessas transformações, porém precisam pensar em novas modificações que poderão ser previstas para proteger os trabalhadores para que não fiquem a mercê das plataformas.

“Precisamos construir contrapontos. E é fundamental o Sindicato e trabalhadores discutirem esse tema para pensarmos que tipo de sociedade e trabalho vamos construir. Para começar a falar em modernidade das relações trabalhistas, temos que ter em mente que as relações de trabalho e o direito de trabalho já não são os mesmos”, apontou Kalil.

 

O ABC da Indústria 4.0

O Coletivo de Políticas Industriais organizou seis encontros do ciclo de debates ao longo do ano:

27 de abril

1º encontro do ciclo de debates foi realizado em um sábado, na Sede.

Casa cheia para discutir o trabalhador na nova indústria. Tratou sobre os avanços das novas tecnologias e onde os trabalhadores brasileiros estão inseridos na disputa tecnológica no mundo.

http://www.smabc.org.br/smabc/materia.asp?id_CON=41927&id_SEC=12&busca=ciclo

26 de junho

Tema: O papel da educação no desenvolvimento tecnológico

Esse assunto foi discutido na UFABC campus Santo André e reforçou a importância da educação para o futuro da indústria nacional, ainda mais em um momento de cortes dos investimentos na educação feitos pelo atual governo.

http://www.smabc.org.br/smabc/materia.asp?id_CON=42077&id_SEC=12&busca=ciclo

26 de agosto

Tema: Os desafios da inovação

Encontro na Regional Diadema do Sindicato reuniu representantes do Sindicato, da Universidade Federal do ABC e da Yaskawa/Motoman com a intenção de criar a sinergia entre as empresas e as universidades que inovam e contribuem para o crescimento do país e o Sindicato, que está preocupado com o papel dos trabalhadores dentro da evolução tecnológica.

http://www.smabc.org.br/smabc/materia.asp?id_CON=42252&id_SEC=12&busca=ciclo

31 de outubro

Tema: Nanotecnologia: Aplicações e Perspectivas nas Indústrias Químicas e Metalúrgicas

Encontro no Sindicato dos Químicos do ABC, em Santo André, tratou da nanotecnologia, aplicada na indústria brasileira desde o início dos anos 2000 em diversas áreas como a eletrônica, cosméticos, roupas e até no campo, mas ainda apresenta pouca clareza sobre os impactos na saúde de quem usa e manuseia os produtos e no meio ambiente, o que preocupa os sindicatos.

http://www.smabc.org.br/smabc/materia.asp?id_CON=42452&id_SEC=12&busca=ciclo

13 de novembro

Tema: Desenvolvimento e Inovação: desafios e oportunidades para o ABC

Debate no campus Santo André da UFABC com a participação de professores da UFABC e da USP. A discussão tratou dos desafios de inovação que estão colocados em produtos, negócios, serviços e processo; da diversificação e da reconversão de produção.

http://www.smabc.org.br/smabc/materia.asp?id_CON=42501&id_SEC=12&busca=ciclo

Da Redação. 

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