Além das fábricas: dirigentes debatem os desafios do Sindicato do futuro
Nova conjuntura exige que sindicatos se reorganizem para além das fábricas
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Fotos: Roberto Parizotti
No seminário Desafios da Organização Sindical, realizado em São Paulo, nos dias 22 e 23, representantes dos trabalhadores dos ramos metalúrgico, químico, vestuário, alimentação e construção civil se reuniram para planejar ações em defesa da retomada do crescimento do setor industrial, da geração e manutenção de empregos e do futuro das organizações sindicais diante do cenário de precarização das relações de trabalho no Brasil e no mundo.
O evento foi organizado pelo Macrossetor da Indústria da CUT, o Instituto Trabalho, Indústria e Desenvolvimento (TID-Brasil) e pela Fundação Friedrich Ebert (FES).
No primeiro dia de debates os representantes discutiram o “Plano Indústria 10 +” com diretrizes para a reorganização e recuperação da indústria brasileira, especialmente de transformação, construção civil e agronegócio, com o foco no desenvolvimento e na defesa e manutenção dos direitos dos trabalhadores.
Segundo o presidente do TID Brasil, Rafael Marques, o “Plano Indústria 10+” defende um modelo de reindustrialização do Brasil com a participação dos trabalhadores e trabalhadoras. “O Brasil tem perdido elos da cadeia produtiva, perdido fábricas, trabalhadores, o que enfraquece a luta da classe. A produção de automóveis no Brasil, por exemplo, que antes tinha 95% de conteúdo nacional, hoje tem entre 40% e 50%, em média. O país perde com isso, inclusive em soberania”, defendeu.
No segundo dia, o foco da discussão foi o desafio dos sindicatos nesta nova conjuntura. Para o economista Marcio Pochmann, professor do Instituto de Economia da Unicamp, trata-se de um momento de ruptura do sistema de trabalho corporativo, que vigorou desde o chamado novo sindicalismo, para um modelo contratualista individual, o que impõe desafios aos sindicatos, que devem buscar se reinventar.
Antes agentes de “avanços civilizatórios” nas relações de trabalho, os sindicatos ocupam hoje papel de “retaguarda” na preservação de direitos. É preciso um “salto triplo”, segundo ele, para sair dessa situação defensiva e avançar.
Segundo Pochmann, uma das saídas é que os sindicatos se organizem para além das fábricas. “Os sindicatos devem voltar a ser espaços de sociabilidade capazes de tratar e propor soluções em questões relativas à mobilidade, saúde, assistência de todo o tipo, cultura, lazer e, principalmente, qualificação do trabalhador”.
O secretário-geral do Sindicato, Aroaldo Oliveira da Silva, que acompanhou a atividade, destacou a importância da discussão. “As falas nos ajudaram a refletir sobre os desafios para atender as novas demandas da sociedade. O sindicato tem que ser mais atrativo, dialogar de forma mais direta com essa nova geração que quer novas formas de discussão e atuação, mas nunca esquecendo de estar no chão de fábrica dialogando com os problemas reais”, avaliou.
“Esta reorganização é fundamental, ainda mais depois da eleição desse governo que já se desenha como conservador e que vai aprofundar a retirada de direitos dos trabalhadores”, concluiu.
Modelo alemão
O professor Manfred Wannöffel, pesquisador da Universidade de Bochum-Ruhr, Alemanha, destacou avanços na estrutura sindical em seu país que permitiram manter o protagonismo, apesar das flexibilizações trabalhistas vivenciadas 15 anos atrás e da saída de linhas de montagens de grandes empresas, movidas para a Ásia.
Os sindicatos alemães principalmente o IG Metall, o maior do país – passaram a ter papel cada vez mais atuante na cogestão das empresas, a partir das comissões de fábrica, de modelo “dual”, reunindo representantes dos trabalhadores e os gestores da própria empresa.
O IG Metall também procurou se aproximar de universidades e instituições científicas para garantir formação técnica adequada, em especial para os que participam das comissões, mas também para todos os trabalhadores afetados pelas mudanças tecnológicas.
Wannöffel também destacou o trabalho dos sindicatos para garantir paridade salarial entre homens e mulheres, bem como a representação paritária nas comissões de fábrica.
Da Redação