CUT e o Dia Mundial do Meio Ambiente
Em entrevista, Carmen Foro fala sobre os desafios do movimento sindical na proteção do planeta
A secretária Nacional do Meio Ambiente da CUT diz que o movimento sindical deve pensar a proteção ambinetal a partir da inclusão dos trabalhadores e trabalhadoras.
Para a CUT, o que está no centro do debate ambiental?
CARMEN FORO: A classe trabalhadora. Em qualquer lugar do mundo ela é o centro do debate sobre meio ambiente, até porque os trabalhadores/as estão presentes nos variados processos de produção do trabalho e são eles e elas quem mais diretamente sofrem as conseqüências, se uma sociedade não prioriza a sustentabilidade.
Como priorizar a sustentabilidade quando entra em jogo a geração de empregos?
CARMEN FORO: Tanto a sustentabilidade ambiental quanto a geração de empregos interferem diretamente na vida da classe trabalhadora, são dois temas da maior importância e é para que andem sempre juntos que nós da CUT lutamos. Quando se tem planejamento, vontade política e um movimento sindical e social presente, que faz a diferença, quer seja na proposição de alternativas, no monitoramento das ações, intervindo nas tomadas de decisões ou ainda articulando mobilizações há, sim, toda a possibilidade de sustentabilidade e geração de empregos caminharem juntas.
As grandes tragédias ocorridas no planeta, em especial desde o século passado, levaram a uma ampliação da consciência ambiental no Brasil, que mobilize os trabalhadores/as?
CARMEN FORO: Historicamente a CUT atua neste tema, em especial junto às comissões de fábricas, discutindo poluição, ruídos, ambiente externo, risco químico, dentre muitos outros temas. Mas sem dúvida, os últimos anos foram decisivos para uma necessária tomada de consciência. Naturalmente, ainda há o que se fazer, mas os trabalhadores/as têm hoje muito mais compromisso com a agenda ambiental. E se traduz numa nova consciência em relação ao planeta, ainda aquém da necessária, mas certamente bastante significativa.
Os trabalhadores/as estão sim mais comprometidos e conscientes das implicações das atividades humanas sobre o meio ambiente e esses temas passaram a merecer uma abordagem mais sistemática, pois eles e elas sabem quem será diretamente prejudicado, a duras penas, pagando a conta da inconseqüência do grande capital.
Nos temas ambientais, qual o papel do Brasil no contexto internacional?
CARMEN FORO: Protagonismo. E com muita propriedade. Mesmo com o tanto que já foram destruídos de nossas reservas naturais, nossos biomas, nossa Amazônia, estamos sim, gozando de prestígio social, econômico, cultural e ambiental. O Brasil prepara-se para em poucos anos ser a 5ª potência econômica mundial. É um papel fundamental, estratégico e de liderança global, que aponta caminhos e propõe soluções.
Enfrentou a crise, que também teve seus impactos aqui, com garra e trabalho. O povo brasileiro foi fundamental, os trabalhadores/as acreditaram, não desistiram, movimentaram a economia. O governo Lula transformou a imagem do Brasil diante do resto do mundo. Hoje, mais que nunca temos orgulho da nossa nação, do nosso povo e porque não dizer do nosso governo. Mas esse protagonismo deve servir, sobretudo, para reduzir ainda mais os contrastes sociais e econômicos, ainda incompatíveis com uma nação soberana como a nossa.
Portanto, para além da floresta amazônica, o que por si já representa nossa soberania, o Brasil tem as portas do mundo abertas e nas negociações de temas relacionados ao meio ambiente a opinião do Brasil conta muito. Somos um país jovem, ao assumirmos compromissos voluntários de reduzir as emissões, demonstramos grande ousadia e a prova de que apesar da imensa conta deixada pela Europa e os Estados Unidos, o Brasil tem avançado na discussão de um novo padrão de consumo, menos desordenado e nocivo ao planeta, buscando alternativas sustentáveis de sobrevivência, sem deixar de cobrar incisivamente a responsabilidade dos países poluidores.
E qual tem sido a atuação da CUT no combate às mudanças climáticas?
CARMEN FORO: Nossa atuação é no sentido de acompanhar e intervir nos impactos que a redução de emissões possa trazer para os trabalhadores/as quer seja na necessidade de requalificação ou no remanejamento destes trabalhadores/as em caso de eventual fechamento de postos de trabalhos. No Nordeste e parte do Sudeste, por exemplo, a desertificação é uma grande ameaça à moradia, aos postos de trabalho e à produção de alimentos. É necessária uma intervenção massiva de governos e sociedade civil para minimizar os estragos das mudanças do clima sobre a vida dos trabalhadores e das trabalhadoras.
Outra forma é a garantia da implementação dos compromissos voluntários assumidos pelo presidente Lula em Copenhague. Assim como da Lei do Fundo, Lei de Mudanças Climáticas e a revisão do Plano Nacional de Mudanças Climáticas, ações essas que orientam nossa intervenção na COP 16, em Cancun, no México, em novembro deste ano.
Esse também é o ano da biodiversidade e o Brasil reúne uma das maiores diversidades biológicas do mundo, cujo valor é imensurável seja para a biotecnologia, a economia, ou a ciência. O papel que a Amazônia cumpre nesse novo ciclo de desenvolvimento do Brasil não é apenas de exportador de matéria prima. Temos que ser parte de um desenvolvimento que tenha no centro da suas potencialidades a infra-estrutura e a integração interna e regional do Brasil. Nossa capacidade de desenvolvimento precisa ser potencializada na forma de mais investimentos e políticas públicas que tenham como meta transformar a Amazônia num celeiro de produção sustentável.
A Amazônia é um palco de resistência histórica de enorme potencial produtivo. E seu povo é a sustentação de uma região que reúne especificidades jamais encontradas em nenhum outro lugar.
Quais os grandes desafios da agenda ambiental da CUT?
CARMEN FORO: São muitos, além dos já mencionados iniciam-se as discussões sobre a “Rio 20”, Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento Sustentável, estratégico momento de discussão da questão ambiental 20 anos após a Eco 92, sediada no Brasil. Uma oportunidade de avaliar os rumos mundiais no tema ambiental e de propor novos paradigmas para os países. A Agenda 21, um dos principais resultados dessa Conferência requer uma maior articulação para sua implementação, assim como os objetivos do milênio que estão aquém nos temas ambientais e de gênero. O Brasil politicamente terá um papel fundamental na articulação e formulação de propostas, assumindo uma liderança ainda maior que há 20 anos. A CUT participou ativamente da Eco 92, como ficou conhecida a Conferência e está presente desde os primeiros momentos de organização da Rio 20.
Outro tema de igual importância são os empregos verdes. A necessidade da ampliação massiva de postos de trabalho decente, a consciência para a redução no consumo de carbono, o que representará uma imensa diminuição nos impactos, principalmente sobre os mais atingidos, jovens, mulheres e os mais pobres. Essa discussão se alinha ao modelo de desenvolvimento que queremos construir, na promoção de um círculo virtuoso e eficiente.
Finalizo dizendo que tramita no Congresso Nacional um conjunto de questões focadas no tema ambiental e da agricultura familiar, tais como o código florestal, os 20 pontos acordados entre as entidades do campo e o governo, o reconhecimento e valorização da agricultura familiar, elementos que compõe uma disputa com o agronegócio. Nós produzimos alimentos de forma variada e focada no consumo interno e os produzimos com responsabilidade, minimizando prejuízos ao meio ambiente e isso nos diferencia da produção agroexportadora promovida pela bancada ruralista que concentra, destrói e visa exclusivamente seus lucros. Nossa produção é sustentável, temos consciência da importância de produzir alimentos com o mínimo risco químico e ambiental. Nós da CUT não somos representados por essa produção que é incompatível com o modelo de desenvolvimento que queremos e construímos cotidianamente, porque acreditamos na garra e no poder de transformação da classe trabalhadora.
Da redação com CUT Nacional