Dissonância cognitiva

Em 1954 uma dona-de-casa de Chicago teve uma visão: dia 21 de dezembro o mundo acabaria, num dilúvio bíblico.

Foto: Divulgação

Uma mensagem marcando data e hora foi-lhe entregue por uma divindade extraterrena chamada Sananda, diretamente do planeta Clarion. Mas todos aqueles que acreditassem nela seriam salvos por um disco voador.

Ela participava de um grupo de estudo de OVNIs, onde todos acreditaram na história e formaram uma espécie de seita para se preparar para o dilúvio. Muitos tomaram decisões drásticas: largaram empregos, famílias, bens materiais e qualquer elo com este mundo terreno.

Um professor de psicologia leu uma nota no jornal sobre o culto e se interessou pela estória. Ele sabia que, quanto maior e mais custosa a decisão (em termos de tempo, dinheiro, esforço ou inconveniência) e quanto mais irrevogáveis suas consequências, maior o apego das pessoas com a escolha.

Como seria o comportamento do grupo depois que sua previsão se revelasse falsa? Quais seriam as reações das pessoas se a profecia não se realizasse?

Na noite do dia 20, Marion Keech, seus seguidores e o infiltrado professor reuniram-se em sua casa aguardando o cataclisma. Próximo à meia-noite, todos se livraram dos últimos objetos metálicos (relógios, anéis, correntes), que pudessem atrapalhar a chegada do seu transporte intergaláctico.

Eram 4h da manhã. Nem chuva, nem disco voador. Marion Keech irrompe em prantos, para momentos depois receber uma nova mensagem de Sananda: o grupo reunido havia irradiado tanta energia positiva que os deuses resolveram poupar este planeta. A maioria dos presentes acharam então, que haveria uma segunda vinda, na véspera de Natal. Se reuniram e, duplamente desiludidos, muitos largaram a seita.

Uma situação é idêntica a destas pessoas e a dos terroristas que depredaram em Brasília: uma persistente e frustrante busca por ordens: eles acreditavam que, fazendo o que fosse ordenado, conseguiriam o intuito, não importando quão absurdo ou irreal ele fosse. Este é o primeiro (e clássico) exemplo de dissonância cognitiva, assunto que continuaremos na próxima coluna.

Comente este artigo. Envie um e-mail para [email protected]
Departamento de Saúde do Trabalhador e Meio Ambiente