Editorial: Amai o próximo como a ti mesmo

Um dos mandamentos cristãos parece estar com os dias contados, principalmente no que depender da ultradireita brasileira, que apesar de ter Deus como slogan, prega o ódio indiscriminado. Tal discurso ganhou ainda mais peso, na semana passada, com a criação do partido ‘Aliança Pelo Brasil, que tem como número o mais conhecido calibre de um revólver e ganhou como emblema um quadro feito de cartuchos. Assim o novo partido da família Bolsonaro deixa claro a que veio.

O discurso de ódio empregado durante toda a campanha eleitoral de 2018, deve ganhar ainda mais força com a criação de uma sigla própria. Exaltação do AI-5, homenagens ao torturador Ustra, ao ditador Pinochet, destruição de placa com o nome da vereadora Marielle e de charge que mostrava um policial matando um homem negro, situações que tanto nos deixam perplexos, foram corriqueiras entre os integrantes desse partido.

Durante o evento de criação da legenda, Bolsonaro afirmou que ladrão de celular tem que ir “pro pau”. Sim, todos entendemos a necessidade de dar mais segurança à população, mas com esse discurso travestido de moralidade e valores, Bolsonaro arrebanha as chamadas “pessoas de bem” ao mesmo tempo que prega o ódio e incentiva a violência. Fica claro que para essa ultradireita o sagrado não é a vida, e sim a propriedade. Assim, nosso valor mais precioso cai por terra, a vida.

O presidente decidiu encaminhar ao Congresso o projeto de lei que amplia o conceito do chamado excludente de ilicitude, ou seja, a licença para matar. A sugestão que estava no pacote anticrime havia sido derrubada na Câmara dos Deputados.

Ainda ontem o presidente afirmou que enviará ao Congresso um projeto de lei que autoriza o emprego pelo governo federal da chamada GLO (Garantia da Lei e da Ordem) para reintegração de posse em propriedades rurais. Elas incluem a participação de agentes de segurança civis e militares, como das Forças Armadas e da Polícia Federal. Ou seja, Bolsonaro quer garantir impunidade a policiais e militares que matarem em reintegração de posse de propriedades rurais ocupadas por camponeses, trabalhadores rurais, indígenas e quilombolas. 

Se com todos esses exemplos ainda não ficou claro que o ensinamento bíblico que dá título a esse editorial passa longe dos objetivos desse governo, logo teremos novos exemplos para citar e, quem sabe assim, promover a discussão sobre o que é realmente necessário para este país, independente de crenças religiosas.