Metalúrgicas debatem feminicídio como resultado do machismo na sociedade brasileira
A 4º Conferência de Mulheres antecedeu o 10º Congresso da CNM/CUT que começa hoje

Fotos: Adonis Guerra
Começou ontem a 4º Conferência de Mulheres “Do Machismo ao Feminicídio: pelo direito à vida das mulheres”. A atividade antecede o 10º Congresso Nacional dos Metalúrgicos da CUT, que tem início na noite de hoje, em Guarulhos (SP).
O Brasil está na lista dos países que mais matam mulheres. É o quinto no ranking de crimes de feminicídio, segundo os últimos dados do Mapa da Violência. O estudo revela ainda que 50,3% das mortes violentas de mulheres são cometidas por familiares e 33,2% por parceiros ou ex-parceiros.

A palestrante Luciana Araújo, jornalista pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, militante feminista que atua no Núcleo Impulsor da Marcha das Mulheres Negras elogiou o fato de 40% do público do Congresso ser de mulheres. “Isso é produto de um processo histórico pesadíssimo, de uma luta consciente que vocês vêm travando para aumentar a participação no processo decisório nos rumos do movimento sindical”.
Luciane lembrou que a violência contra a mulher está longe de ser um problema doméstico. “O homem violento é produto de uma sociedade que objetifica as mulheres, em particular as negras. O feminicídio começa quando nasce um menino. Quando ele vira homem e a companheira diz ´não´, ele não aceita porque passou a vida inteira aprendendo que para ser homem de verdade tem que conseguir o que quer, nem que seja na base da porrada”.
A advogada pela Faculdade de Direito do Largo São Francisco (USP), cofundadora e integrante da Rede Feminista de Juristas, Isabela Del Monde, questionou a justificativa recorrente de que “o homem perdeu a cabeça”.
“Por que o homem só perde a cabeça com a mulher? Ele está rasgando dinheiro? Está saindo pelado na rua? Está saindo na porrada com o chefe? Não, né? Mas com a mulher todas as reações mais violentas possíveis são permitidas. Isso está intrinsecamente ligado à nossa formação cultural”.
A jurista destacou situações machistas na sociedade brasileira. “Até 2002, por exemplo, no Brasil um casamento poderia ser anulado se a mulher não fosse virgem. Até pouco tempo, a mulher precisava pedir autorização do marido para trabalhar. Por tudo isso, é preciso que mulheres ocupem cada vez mais o poder para enfrentar o patriarcal”, concluiu.
A vereadora por São Bernardo pelo PT e ex-diretora do Sindicato, Ana Nice, apresentou seu projeto de lei aprovado na Câmara que dispõe sobre diretrizes para o enfrentamento à violência contra mulheres.

“A medida visa estratégias efetivas de prevenção e de ações que garantam o empoderamento feminino e seus direitos humanos, a responsabilização dos agressores e o acolhimento qualificado às mulheres em situação de violência. É um projeto que integra os serviços públicos já existentes e outros que forem criados, para consolidar uma política municipal de enfrentamento à violência contra as mulheres.”
“Achei excepcional porque abrangeu as mulheres no geral, as metalúrgicas, a mulher pobre, a negra, a que sofre todo e qualquer tipo de assédio. A gente se sente representada”, afirmou a trabalhadora na Volks, Leidiane Pereira da Silva Marsal.
A coordenadora do Coletivo das Mulheres Metalúrgicas do ABC, Andrea Ferreira de Sousa, a Nega, destacou a importância de discutir o assunto. “Foi muito bom porque tratou da importância de mulheres e homens debaterem as consequências do machismo. Enquanto não entendermos isso, não vamos avançar como sociedade”.