“Modelo de Previdência é uma grande tragédia”

O secretário-geral da CUT, Sérgio Nobre, falou sobre o modelo de capitalização da Previdência que o governo quer implantar e ressaltou a importância da organização e da mobilização da classe trabalhadora para defender a aposentadoria e todo o sistema de seguridade social. 

 Tribuna – O que representa o projeto de reforma da Previdência?

Sérgio Nobre – No fim do ano passado, o governo começou a falar da reforma inspirada no modelo do Chile, que é um sistema de capitalização implantado na ditadura Pinochet nos anos 80. A aposentadoria deles caiu 30% do valor referente à década de 80, 44% dos aposentados estão abaixo da linha da pobreza e 78% não atingem nem o salário mínimo.

Hoje o trabalhador chileno que se aposenta tem que viver de favor da família. Não tem como sobreviver se a família não sustentar. É uma grande tragédia. Tanto que o governo chileno atual, que é de direita, quer fazer uma reforma para voltar atrás dessa situação insustentável de desproteção total das pessoas.

Tribuna – Como funciona a capitalização da Previdência?

Sérgio Nobre – É como se fosse uma poupança. O trabalhador coloca o seu dinheiro individualmente em um fundo privado, sem contribuição das empresas e do governo. Quando o dinheiro acaba, não tem mais nada. Na Previdência, a aposentadoria é um benefício para o resto da vida. Essa é a desproteção e o desastre que o governo brasileiro quer copiar.

Temos que lembrar que a Previdência não é só a aposentadoria. É todo um sistema de Seguridade Social. É quem paga o auxílio doença quando o trabalhador fica doente ou sofre acidente de trabalho e a pensão aos filhos em caso de morte. 

Tribuna – Como está a mobilização da classe trabalhadora?

Sérgio Nobre – Em novembro, quando já se apontava para o modelo de capitalização, as centrais fizeram uma plenária no Dieese, com aprovação da campanha permanente em defesa da Previdência e Seguridade Social. Na atividade, um dirigente chileno detalhou como o modelo falhou naquele país.

Nos primeiros dias do ano, as centrais entregaram uma carta ao governo para que não encaminhasse nada antes de um amplo processo de debate com a sociedade e negociação com o movimento sindical.

Esse governo ignorou e quer mandar o desmonte da Previdência Pública goela abaixo dos brasileiros. Se o sistema tem problema, tem que ser debatido com todos para encontrar uma solução. Não vamos permitir autoritarismo para retirar direitos da classe trabalhadora e dos mais pobres.

Tribuna – Quais são os próximos passos?

Sérgio Nobre – É muito importante que as categorias façam assembleias para discutir muito o conteúdo e as consequências graves aos trabalhadores. A CUT São Paulo organizará a plenária estadual dia 13 de fevereiro e isso se dará em todos os 27 estados do país para tirar as definições de luta por estado.

Com todas as informações que virão das estaduais, as centrais sindicais vão fazer uma grande assembleia da classe trabalhadora no dia 20 de fevereiro, em São Paulo, para anunciar o plano de lutas em defesa da Previdência Social.

Tribuna – Quem são os interessados na reforma da Previdência?

Sérgio Nobre – Não é verdade que a Previdência Pública é deficitária e está quebrada. Essa informação é ideológica, querem enganar o povo para dar lucro aos bancos com a história de Previdência complementar.

O movimento sindical defende a cobrança dos R$ 450 bilhões que os empresários devem à Previdência, além de cobrar impostos de grandes fortunas e direcionar 100% para a Previdência.

A reforma do jeito que querem propor é desnecessária. A luta dos trabalhadores é para defender os direitos trabalhistas e previdenciários. Sem esses direitos, é selvageria.

 Da Redação