O PSDB criou a crise com pavor do sucesso de Lula

Para o cientista político Wanderley Guilherme dos Santos, um dos acadêmicos mais respeitados do País, o PSDB, com ajuda da imprensa, criou uma crise para desgastar a imagem do governo Lula. O motivo? Pavor do sucesso do governo Lula.

“O PSDB sabe que com mais dois anos de governo Lula, como vinha até agora, ele levaria uma surra em 2006, disse Wanderley, que é pró-reitor da Universidade Candido Mendes, no Rio. Em 1960 , ele publicou o livro Quem Vai Dar o Golpe no Brasil, sendo um dos poucos a perceber o golpe militar que viria quatro anos depois.

Há uma grave crise política?
A palavra crise entrou no vocabulário político desde janeiro de 2003, quando Lula assumiu. Existe uma crise, mas é uma crise normal em sistemas democráticos.

E qual a razão dela?
São várias causas e não apenas a causa dos interessados mais evidentes, que são os próprios políticos. Por outro lado, se essa denúncia do mensalão tivesse sido feita durante o governo FHC não teria provocado grandes marés.

Por que?
Primeiro, porque é uma denúncia genérica. Falou-se muito do pagamento de parlamentares por fora durante o processo de aprovação da reeleição. Não aconteceu nada porque a oposição não tinha capacidade de fazer acontecer e porque não tinha imprensa querendo fazer acontecer.

E isso envolvia uma figura chamada Sérgio Mota (ministro das Comunicações de FHC). Já o deputado Roberto Jefferson tem um currículo que, por si só, não transfere credibilidade e peso às declarações.

E criou-se a crise…
E criou-se um terremoto, mesmo com denúncia genérica e falta de credibilidade dos denunciantes. Outra causa da crise é o pavor que o PSDB tem que o segundo turno seja entre Lula e Garotinho e não com o candidato do PSDB. Independente de Garotinho, há interesse de o PSDB macular a imagem do Lula. Desde janeiro de 2003 temos tido sucessivas rodadas de denúncias nos jornais acompanhadas de uma pesquisa.

Uma tentativa de linchamento político?
Não chega a isso, mas são manobras identificáveis. As pesquisas feitas na sequência das denúncias indicavam que a imagem do presidente não era afetada. Isso tem sido desesperador para a grande imprensa.

Qual o interesse da imprensa?
A democracia em países em desenvolvimento só se consolida quando a imprensa for irrelevante para a estabilidade do governo. No Brasil ela é um ator importante no que diz respeito a essa estabilidade.

O senhor se refere à capacidade de formar marolas?
Marolas, não. Grandes furacões. A grande imprensa levou Getúlio ao suicídio com base em nada; quase impediu Juscelino de tomar posse, com base em nada; levou Jânio à renúncia, com base em nada.

A grande imprensa em países em desenvolvimento é a grande porca das instituições, a grande emporcalhada.

A imprensa é assim ou ela está assim?
A imprensa não é assim. Ela é assim em certos períodos dos países. É preciso lembrar para não deixar passar. A imprensa levou Getúlio ao suicídio com inverdades e com fatos falsos, construídos. E promoveu um golpe de Estado em 1964. Não há como negar isso. Há dois anos e meio a imprensa tenta botar Lula debaixo dessa pauta.

Não é papel da imprensa tomar conta, fiscalizar
É tomar conta, sim. Desestabilizar, não. A estabilidade não pode depender de militar, nem da Igreja, nem da imprensa. A imprensa é a maior corporação existente hoje no País e com um poder infernal.

O PSDB passou a linha das ações políticas éticas?
Quando se diz que existe uma crise institucional ele está cruzando essa linha.

Por que o PSDB teria chegado a esse ponto?
Pelo pavor do sucesso do governo Lula. O PSDB sabe que com mais dois anos de governo, como vinha até agora, ele levaria uma surra em 2006.