“Os elementos fundamentais da prática de como fazer política de Lula foram construídos aqui”

Pesquisador americano, imerso no universo sindical brasileiro, prepara livro sobre Lula

Fotos: Adonis Guerra

Profundo conhecedor da classe trabalhadora brasileira, o historiador americano John French, autor dos livros “O ABC dos operários: conflitos e alianças de classe em São Paulo (1900-1950)” e “Afogados em Leis: a CLT e a cultura política dos trabalhadores brasileiros”, entre outros, visitou o Sindicato no final do ano passado para encontrar mais detalhes para sua nova obra, um livro sobre Lula, previsto para ser lançado nos EUA no próximo ano.

Nesta entrevista ele comenta a retirada de direitos imposta pelo governo Temer e aprofundada por Bolsonaro, a eleição do novo governo e, claro, dá mais detalhes sobre seu novo trabalho.

Tribuna Metalúrgica – Como surgiu o seu interesse pelas lutas sindicais no Brasil?

John French – Eu sempre me interessei pela questão das lideranças políticas e o vínculo com movimentos sociais, comecei a estudar o Brasil em 1979.

Fiquei um mês aqui em São Paulo, em 1980, e depois voltei em 1981 e 1982. Entrevistei professores da USP, mas ninguém estava entendendo muito bem o que acontecia aqui, ninguém estava fazendo esse tipo de pesquisa.

TM – Em seu livro Afogados em Leis, o senhor afirma “A CLT nunca foi concebida para ser real e por isso seus idealizadores puderam ser tão generosos.” Por que essa afirmação?

JF – A CLT, quando foi criada, era um monte de promessas, mas a grande maioria dessas promessas nunca funcionavam, era um jogo, um império de juízes que na verdade não estavam dispostos a fazer força para que aqueles interesses fossem respeitados.

Foi exatamente isso que criou espaço para os sindicatos exigirem o cumprimento das leis. A distância entre as leis e a realidade e é uma coisa típica do Brasil.

TM – Recentemente foi feito um desmonte da reforma Trabalhista. Como você vê essa questão?

JF – Penso que a reforma feita no governo Temer flexibilizou ainda mais uma legislação que na realidade já era flexibilizada e pouco respeitada, especialmente fora das grandes cidades.

Hoje o Brasil tem um presidente que diz que a melhor situação é que todos trabalhem na informalidade. Isso seria uma coisa terrível!

TM – Por falar no governo Bolsonaro, como o senhor avalia o anúncio do fim do Ministério do Trabalho?

JF – Creio que foi um ato simbólico. Eles acham que o gesto de abolir o Ministério seria um golpe além de apenas diminuir a força da legislação.

TM – Nos EUA vocês têm o Trump como presidente e agora aqui no Brasil temos o Bolsonaro. Como você avalia isso?

JF – O povo brasileiro e norte-americano não são na maioria altamente politizados e cometem erros. Talvez demore um tempo, mas as pessoas vão percebendo que cometeram erros.

Há dois anos estávamos como vocês, pensando: ‘Como foi que isso aconteceu? Como podemos ter um presidente tão vil, que apoia tortura e é fortemente preconceituoso e racista?’ Mas não podemos condenar e criticar, é preciso mostrar que foi um erro e que há uma solução melhor.

A eleição do Bolsonaro mostra que o Brasil não avançou muito e ainda tem fortes ligações com a ditadura e a escravidão.

TM – Bom, vamos falar sobre o seu novo livro que já está quase pronto. O que exatamente ela vai abordar?

JF – É uma obra academicamente séria e bem construída, que vai da sua origem, formação, família, o treinamento pelo Senai, o aprendizado do que foi ser operário metalúrgico na época do milagre econômico, a entrada no Sindicato, até a prisão.

Quatro capítulos tratam dos anos de 1969 até 1977, antes das greves, porque, na realidade a maior parte da aprendizagem de Lula em termos de como fazer política e sindicalismo aconteceu dentro do Sindicato.

TM – Na sua visão, há muita diferença entre o Lula daquela época e o Lula de hoje?

JF – A coisa mais impressionante é que, nos termos do argumento que estou utilizando, a retórica do Lula, o discurso que ele construiu era bem distinto do de qualquer outro dirigente sindical, do que de qualquer pessoa.

As particularidades da sua forma de ver o mundo e pensar no que seria o progresso do país estão presentes também no último discurso dele aqui no Sindicato.

Ele diz a mesma coisa que naquele tempo. Todos os elementos fundamentais da prática de como fazer política de Lula foram construídos aqui e já estavam aí em 1978, antes das greves.

 Da Redação