Sindicato debate desafios e futuro com a Indústria 4.0

Fotos: Adonis Guerra

Na reunião do Conselho da Exe­cutiva ampliada do Sindicato ontem, os dirigentes discuti­ram o futuro da indústria automotiva, os impactos no dia a dia dos trabalha­dores e das fábricas e os desafios com o avanço da Indústria 4.0. Confira mais na página 2.

O professor titular do Departamento de Engenharia de Produção da Poli-USP, Mario Sergio Salerno, fez uma análise de como o processo está avançado em outros países e criticou a falta de ação do poder público no Brasil.

“A manufatura avançada está chegando e vai ter impactos. O problema é que, ao contrário da Alemanha, dos Estados Unidos e da China, que são os três países que tentam a liderança e a hegemonia tecnológica, no Brasil não tem políticas públicas claras nem articuladas sobre isso”, afirmou.

O professor explicou que a Indús­tria 4.0, termo utilizado na Alemanha, ou manufatura avançada representa a junção de tecnologias com o poder de transformar o processo produtivo e o produto, ou seja, a linha de produção e o próprio carro.

“O que está na base de todas as trans­formações na indústria e que está au­mentando sem precedentes é o poder computacional. A engenharia e o de­senvolvimento não estão sendo feitos no País”, alertou.

Salerno contou que o programa ale­mão de Indústria 4.0 tem um grau de subsídio e coordenação governamental muito forte.

“Já o programa dos Estados Unidos não é de pesquisa, mas de negócios. A lógica deles é pegar as tecnologias que já existem e amadurecer mais rápido. Mobilizam a inteligência da sociedade e todos sabem o que vai acontecer”, disse.

Carro elétrico

O professor analisou que a princi­pal tendência de impacto na indústria metalúrgica nos próximos anos deve ser o carro elétrico. “Até pouco tempo, acreditava-se em uma transição mais suave do ponto de vista industrial com os híbridos, que tem motor elétrico al­ternado ao motor a combustão”, afirmou.

“Tudo indica que o elétrico virá antes do híbrido. Alemanha, França, Inglater­ra, Estados Unidos e China já sinalizam para o carro elétrico”, prosseguiu.

Entre os motivos está atingir as metas de redução de emissão de gás carbônico e a independência de matriz energética de outros países. O professor lembrou que na França a energia é basicamente nuclear e existe subsídio para a compra de carro elétrico. Na China, a definição pelos carros elétricos é recente e o país obriga as multinacionais que quiserem continuar a produzir na China a adotar o carro elétrico.

As baterias atuais ainda são caras e pesadas e custam cerca de 60% do preço do veículo. “Provavelmente, em alguns anos, as baterias serão mais leves e se­guras. O problema antes era segurar a carga e agora o dilema é como carregar mais rapidamente. Não adianta o carro rodar 800 km em um dia e ficar três dias carregando”, exemplificou.

Salerno alertou também que o motor elétrico é muito mais simples. “Fundição, usinagem, tratamento térmico e até fer­ramentaria desaparecem. E a eletrônica no Brasil é zero”, ressaltou.

Possibilidades

Sobre a produção comercial do carro autônomo, o professor afirmou que, para ele, ainda é ficção científica. “Um sensor custa 70 mil dólares. Está longe de entrar no mercado. A inteligência artificial para analisar se tem alguém atravessando a rua, calcular velocidade, distância e freio, tem que ser por uma decisão muito rápida”, destacou. “Uma colhedeira guiada por GPS já existe, mas 20 cm para lá do pasto não é problema. Na rua tem obstáculos, bicicletas, pessoas”, prosseguiu.

O professor avaliou as possibilidades de política neste cenário de mudança na cadeia produtiva. Uma delas é manter a base instalada para dar sobrevida ao etanol, o que representará dificuldades para exportar, além da disputa com im­portados híbridos e elétricos.

Outra possibilidade é defender o híbri­do a álcool e manter boa parte da base instalada, com as mesmas dificuldades da opção anterior mais a importação da eletrônica. Ou a mudança profunda na cadeia com o veículo elétrico, com me­nor impacto de importação de veículos prontos.

“É difícil prever o desemprego, mas existem previsões catastróficas. Um sin­dicato atuante como os Metalúrgicos do ABC pensa políticas de produção, tipo de indústria e de tecnologia, e tem o desafio de negociar o processo”, concluiu.

Da Redação.