COP30: Metalúrgicos do ABC levam trabalhadores ao centro do debate

Sindicato reforça que inovação só ocorre com participação da classe trabalhadora, qualificação profissional e contrapartidas industriais claras


Foto: Ricardo Stuckert / PR

No momento em que a COP30 entra em sua fase decisiva, os Metalúrgicos do ABC ampliaram sua presença política ao integrar três painéis nos dias 13 e 14 de novembro, em Belém, no Pará. A delegação defendeu uma transição energética que gere emprego, preserve a indústria e fortaleça a neoindustrialização com desenvolvimento tecnológico nacional.

Na manhã do dia 14, o diretor administrativo do Sindicato, Wellington Messias Damasceno, participou do painel “Programa Mover, eletrificação e criação de novos empregos”, realizado a bordo da embarcação JAQ Hidrogênio. A experiência simbolizou, para ele, a diversidade de caminhos que o Brasil pode trilhar na descarbonização. “Fizemos um debate dentro de um barco movido à hidrogênio, mostrando que é possível avançar em modais distintos. Falamos de etanol, hibridização, eletrificação e também do hidrogênio. Trouxemos a qualificação profissional para o centro, junto da necessidade de produzir tecnologia aqui, gerando emprego e conhecimento no país”.

Foto: Ricardo Stuckert / PR

Ao ser questionado sobre neoindustrialização, o dirigente reforçou que o país tem potencial para atuar em várias frentes, desde motores mais eficientes até soluções em hidrogênio. “Não precisamos escolher um único caminho. Temos condições para conviver com diferentes rotas, desde que apoiadas por políticas industriais que garantam produção local e proteção ao emprego”.

O dirigente enfatizou, por exemplo, que programas como Mover, Combustível do Futuro e Carro Sustentável só geram resultados quando construídos em processos de diálogo entre governo, empresas, sindicatos e academia. Segundo ele, a transição justa exige contrapartidas sociais, como manutenção de postos de trabalho, metas de qualificação e investimentos em desenvolvimento nacional. “Se existe incentivo público para inovação, precisa haver compromisso com emprego, formação e participação dos trabalhadores”.

Base produtiva

Na parte da tarde, o Sindicato integrou o painel “Descarbonizando o setor de transportes: soluções brasileiras para o mundo”, no qual defendeu que o país avance na descarbonização sem abandonar sua base produtiva. Wellington reforçou que a transição energética não pode acontecer às custas da redução industrial. “É possível descarbonizar combinando modais e tecnologias. O essencial é garantir que essa transformação aconteça no Brasil, gerando oportunidades e ampliando a qualidade de vida dos trabalhadores”.

Para ele, uma transição justa só se sustenta com negociação coletiva fortalecida, inovação e políticas articuladas entre União, estados e municípios. “Somos um país continental, com realidades diversas. A transição precisa assegurar proteção aos trabalhadores e estimular investimentos que preservem nossa capacidade produtiva”.

O presidente do Sindicato, Moisés Selerges, avaliou que a atuação da entidade demonstra a importância da voz dos trabalhadores nos debates globais. “Mais uma vez, o Sindicato marca posição. Acaba a COP30, mas o debate continua. Somos uma entidade que pensa políticas públicas para quem produz a riqueza deste país. Nossa presença expressa o Brasil do diálogo, onde trabalhadores, empresários e o poder público constroem soluções”.

Moisés ressaltou ainda a relevância de participar das discussões principalmente no painel sobre descarbonização, onde ficam delegações governamentais de todo o mundo. “Desse diálogo surgem encaminhamentos para que a transição energética não fique só no discurso. A Amazônia era uma antes da COP e será outra depois. Foi acertada a escolha de Belém. Viva a classe trabalhadora!”.

Intervenção regional

A atuação sindical se somou à participação do presidente da IndustriALL-Brasil e da Agência de Desenvolvimento Econômico do Grande ABC, Aroaldo Oliveira da Silva, que levou à COP30 as experiências do ABC e reforçou a necessidade de um plano regional robusto para enfrentar a crise climática. “Debatemos rotas, políticas e caminhos para uma mobilidade de baixo carbono. Essa conexão entre Belém e o ABC nos permite assumir compromissos que levaremos aos prefeitos e às secretarias, fortalecendo uma agenda regional de enfrentamento climático”.

Para Aroaldo, a transição justa precisa ampliar a articulação com universidades, institutos tecnológicos e centros de pesquisa, garantindo desenvolvimento local de tecnologias e inovação industrial, pilares essenciais para reindustrializar o país.

Potenciais brasileiros

Um dia antes, no espaço dedicado à sociedade civil, Wellington participou do painel “Soluções Brasileiras para a Transição Justa: Indústria, Mobilidade e Desenvolvimento Sustentável”. Durante o debate, o dirigente destacou que a transição justa precisa colocar o trabalhador no centro das decisões, e não apenas focar em tecnologias ou metas ambientais. “Precisamos de uma transição que envolva qualificação profissional e valorize os potenciais brasileiros. Esse debate não pode ocorrer apenas entre empresas e governo; precisa incluir academia, movimento sindical e organizações sociais. É fundamental promover uma reindustrialização capaz de enfrentar a emergência climática e levar bem-estar à população”, afirmou.

Com presença ativa e propostas consistentes, os Metalúrgicos do ABC encerraram sua participação reafirmando que a transição energética precisa ser inclusiva, soberana e construída com diálogo social, negociação coletiva, contrapartidas industriais e qualificação permanente para quem vive do trabalho.

Pontos da transição defendidos pelo governo federal na COP30

O governo federal propôs ontem triplicar a energia renovável e dobrar a eficiência energética até 2030, reduzindo a dependência de combustíveis fósseis. O compromisso central da COP30 é criar um roadmap – leia-se em português, mapa do caminho –, plano com etapas, prazos, metas e responsáveis para orientar a transição energética e encerrar o desmatamento ilegal.

O documento deve integrar: valorização das florestas, fortalecimento da sócio-bioeconomia, recuperação de áreas degradadas e cooperação entre governos, empresas e comunidades — um “mutirão” pela mudança.

O Brasil apresentou o TFFF (Fundo Florestas Tropicais para Sempre), que pretende captar US$ 125 bilhões do setor privado. As aplicações financiarão países que preservam florestas, proporcionalmente à área conservada.

Com “senso de urgência”, o governo reforçou que o mundo precisa acelerar a decisão de se afastar dos combustíveis fósseis, diante do aumento dos eventos extremos e do risco real de não cumprir a meta de limitar o aquecimento a 1,5°C.