Como a China construiu domínio sobre terras raras ao longo de seis décadas

Pequim tratou minerais como política de Estado e hoje os usa como alavanca geopolítica

O domínio da China sobre as terras raras começou longe dos laboratórios de alta tecnologia. Em 1964, geólogos chineses descobriram que uma mina de ferro perto de Baotou, no norte do país, abrigava também o maior depósito conhecido desses 17 metais hoje essenciais à economia global. À época, Deng Xiaoping, então um dirigente de alto escalão do Partido Comunista, visitou a área e deixou clara a prioridade estratégica: desenvolver aço e, ao mesmo tempo, desenvolver as terras raras. Décadas depois, essa diretriz se provaria decisiva.

Usadas em aplicações civis e militares —de motores elétricos e turbinas eólicas a mísseis e caças—, as terras raras e os ímãs produzidos a partir delas são insumos críticos da economia. O fato de a China responder hoje por cerca de 90% da produção global desses materiais confere a Pequim enorme poder sobre cadeias industriais e tecnologias limpas. Esse domínio não foi acidental. Resulta de planejamento estatal de longo prazo, investimentos públicos e coordenação direta entre governo, Exército e indústria.

Hoje, Pequim busca consolidar sua vantagem investindo pesadamente em educação e pesquisa. Dezenas de universidades chinesas oferecem programas especializados em terras raras, enquanto EUA e Europa carecem de formação equivalente. O resultado é um domínio não apenas da extração, mas também do refino e das aplicações mais avançadas desses minerais.

A China tem centenas de cientistas explorando tecnologias ligadas às terras raras. Técnicos em uma refinaria em Wuxi, cidade próxima a Xangai, passaram sete anos realizando experimentos para refinar o disprósio —uma terra rara— a um grau extraordinário de pureza. A refinaria é hoje a única fonte mundial desse elemento, usado em capacitores, pequenos dispositivos de controle elétrico, presentes nos chips de inteligência artificial Blackwell, da Nvidia.

Da Folha de São Paulo