Sindicato recoloca fim da escala 6×1 no centro do debate nacional
Entidade defende redução da jornada sem redução salarial como medida para gerar empregos, proteger a saúde e enfrentar os desafios do mundo do trabalho. Pauta tem apoio do presidente Lula

O Sindicato coloca novamente no centro da agenda política e social a defesa do fim da escala 6×1, redução de jornada sem redução salarial, uma pauta estratégica para o presente e o futuro da classe trabalhadora. O debate avança lentamente no Congresso Nacional, mas ganhou novo impulso com o apoio público do presidente Lula que, segundo integrantes do governo federal, considera o tema prioridade neste ano. Para a entidade, a redução da jornada é essencial para gerar empregos, proteger a saúde e garantir melhores condições de vida.
O diretor administrativo do Sindicato, Wellington Messias Damasceno, explica que a proposta se sustenta em três eixos centrais. “O primeiro é que o Brasil já alcançou um nível de amadurecimento produtivo e tecnológico que permite debater o fim da escala 6×1 e a redução da jornada. Isso tem enorme potencial de gerar empregos e impacta diretamente a saúde e a qualidade de vida porque o trabalhador passa a ter mais tempo para estudar, se qualificar, conviver com a família, praticar esporte, cuidar da saúde e ter lazer”, afirma. Segundo o dirigente, essa mudança também contribui para reduzir afastamentos pelo INSS (Instituto Nacional do Seguro Social), tanto por doenças ocupacionais quanto por adoecimentos relacionados à saúde mental.
O segundo eixo, destaca Wellington, é a necessidade de regulamentação nacional. “Aqui no ABC, muitas empresas da nossa base já praticam jornadas de 40, 41 ou 42 horas desde os anos 2000. Isso mostra que a redução é viável. A última diminuição legal da jornada ocorreu em 1988 e, desde então, não houve um marco regulatório que organize essa realidade no país”, aponta. Para ele, a ausência de uma lei amplia desigualdades entre trabalhadores e fragiliza negociações coletivas ao permitir que empresas pressionem categorias que já conquistaram avanços.
O terceiro eixo está ligado à defesa coletiva da redução da jornada como política estruturante. “Quem já tem jornada menor precisa ajudar a puxar essa luta. Hoje, empresas usam o argumento de que concorrentes trabalham mais horas para ameaçar demissões, mudanças de planta ou flexibilizações. Isso atinge especialmente setores como o automotivo, onde as montadoras já praticam redução, mas resistem a ampliar o debate”, avalia. Wellington reforça que experiências internacionais comprovam que jornadas menores elevam produtividade e não quebram economias. “Os principais países da OCDE [Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico] já adotam jornadas reduzidas e avançaram”, observa.
Organização permanente
Para o dirigente, a mobilização social é decisiva. “O Congresso não vota pautas da classe trabalhadora por vontade própria. A isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil só avançou com pressão popular. Em ano eleitoral, deputados e senadores ficam mais sensíveis à voz das ruas”, afirma, defendendo passeatas, ações nas redes e organização permanente.
A história confirma essa trajetória. Durante a Constituinte de 1988, uma grande mobilização sindical, liderada pela CUT (Central Única dos Trabalhadores), garantiu a redução da jornada semanal de 48 para 44 horas. Na base dos Metalúrgicos do ABC, a luta ganhou força ainda na Campanha Salarial de 1985, em meio à recessão, desemprego e avanço da automação. “‘Trabalhar menos para trabalharem todos e viver melhor’ sempre foi nossa bandeira. Hoje, ela volta como resposta concreta aos desafios do mundo do trabalho”, conclui.