Com 4,1 milhões de licenças, Brasil bate recorde em afastamento por saúde mental

Transtornos mentais e comportamentais atingiram o patamar histórico de 546.254 benefícios concedidos, consolidando-se como uma crise de saúde pública sem precedentes na última década

Foto: Adonis Guerra

O mercado de trabalho brasileiro enfrenta um cenário alarmante de adoecimento. Dados recentes da Previdência Social revelam que, em 2025, foram concedidos 4,1 milhões afastamentos por incapacidade temporária, o maior volume dos últimos cinco anos. O índice representa um salto de 17,1% em comparação a 2024. O dado mais crítico, no entanto, refere-se ao colapso emocional da força de trabalho: os transtornos mentais e comportamentais atingiram o patamar histórico de 546.254 benefícios concedidos, consolidando-se como uma crise de saúde pública sem precedentes na última década.

Embora problemas físicos tradicionais, como a dorsalgia (237.113 casos) e hérnias de disco (208.727), ainda liderem o ranking individual por patologia, a ascensão das doenças psíquicas redesenha o mapa do risco ocupacional. Somados, os diagnósticos de ansiedade (166.489) e depressão (126.608) já configuram o segundo maior motivo de ausência laboral no país, superando causas historicamente comuns, como fraturas e lesões traumáticas.

O Sindicato observa com profunda preocupação esse movimento, apontando que a gestão organizacional moderna tem falhado em proteger o capital humano. “É urgente que as empresas realizem investimentos que transcendam a tecnologia voltada apenas ao lucro. Precisamos de melhorias ergonômicas reais e de um olhar humanizado, pois o processo focado exclusivamente em metas não pode atropelar a sanidade de quem produz”, destacou Genildo Dias Pereira, o Gaúcho, coordenador do Departamento de Saúde do Trabalhador e Meio Ambiente do Sindicato.

“Não estamos falando de casos isolados, mas de um adoecimento em massa. Além de olhar para as planilhas, os gestores devem garantir que o trabalhador tenha condições de retornar para casa com a integridade mental preservada, algo que hoje parece luxo”, conclui o dirigente. O levantamento ministerial reforça que condições como esquizofrenia e dependência química também figuram entre as causas de afastamento, sinalizando que a rede de proteção social está sendo sobrecarregada por um cotidiano laboral cada vez mais hostil e desregulamentado.

Nova redação da NR-1
Diante deste quadro crítico, uma mudança na legislação surge como ferramenta de pressão e ajuste. “A partir de maio de 2026, empresas passarão a ser fiscalizadas de acordo com as exigências da nova redação da NR-1 [Norma Regulamentadora 1], que estabelece diretrizes gerais de saúde e segurança no trabalho. Entre as principais mudanças, está a incorporação expressa da avaliação dos riscos psicossociais à gestão de saúde e segurança no ambiente laboral”, explicou Gaúcho.

Com essa atualização, a NR-1 passa a prever, de forma explícita, a inclusão de fatores como estresse, assédio, burnout e violência no trabalho no GRO (Gerenciamento de Riscos Ocupacionais) e no PGR (Programa de Gerenciamento de Riscos). A medida obriga as empresas a saírem da inércia, transformando a saúde mental de uma pauta subjetiva em uma obrigação legal passível de autuação e fiscalização rigorosa.