Boulos visita trabalhadores na Delga e reforça luta pelo fim da escala 6×1
Ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República destacou envio de projeto em regime de urgência e importância da pressão popular no Congresso Nacional

A direção executiva do Sindicato acompanhou na última segunda-feira (9) o ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Guilherme Boulos, em visita aos trabalhadores e trabalhadoras na Delga, em Diadema. O encontro teve como foco a prestação de contas sobre a isenção do IR (Imposto de Renda) para quem ganha até R$ 5 mil por mês e articulação política pelo fim da escala 6×1, reforçando a proximidade entre governo federal e a categoria.

Mais do que um ato institucional, esse encontro permitiu diálogo direto no chão de fábrica sobre dignidade do trabalho e necessidade de avanços legislativos. Boulos reafirmou o compromisso do Poder Executivo com pautas que garantam mais tempo de descanso e qualidade de vida para quem move a produção nacional. Em outubro de 2021, o presidente Lula também esteve na fábrica. Na ocasião, conversou com a companheirada sobre o fortalecimento da indústria para geração de emprego e renda.
Boulos ainda trouxe um recado direto de Brasília: a vida não pode ser resumida à jornada laboral. O foco central foi o fim da escala 6×1, uma luta que visa garantir o descanso como um direito estruturado por lei, combatendo inclusive distorções de competitividade entre empresas. “Vamos para cima para acabar com a jornada 6×1. Mesmo que você tenha 40 horas, ainda tem trabalhador fazendo um sábado sim, outro não. Se uma fábrica resolve diminuir a jornada e o concorrente não, ela perde competitividade”, pontuou o ministro.

O ministro revelou o cronograma da proposta: “O Lula deve mandar, depois do Carnaval, esse projeto de lei para o Congresso Nacional em regime de urgência. Isso significa que, em 60 dias, tem que ser votado. Mas vai precisar de pressão. Lá tem representantes dos patrões, da indústria, dos bancos; dos trabalhadores, são poucos. Por isso, a gente precisa colocar gente nossa lá”.

Indústria e desenvolvimento social
Moisés Selerges, presidente do Sindicato, reforçou que a força de uma nação reside na saúde de sua indústria, mas ressaltou que esse debate deve ser feito com coragem e olhar social. “Não existe país soberano sem uma indústria forte. As empresas precisam entender que o Sindicato representa o trabalhador da porta para dentro e da porta para fora, na cidade e no projeto de país. Não dá para discutir só produtividade e lucro; é preciso discutir desenvolvimento e geração de emprego”, afirmou Moisés.
Conquistas reais e representatividade
A recepção na Delga foi marcada pelo entusiasmo com as recentes mudanças fiscais no país. Claudionor Vieira, secretário-geral do Sindicato, destacou o impacto direto da isenção do IR para quem ganha até R$ 5 mil e a redução para salários de até R$ 7.350.

“Os trabalhadores estão muito contentes com a isenção. Nosso próximo passo é o fim da escala 6×1, a isenção do IR na PLR [Participação nos Lucros e Resultados] e a redução da jornada sem redução de salário. A escala 6×1 maltrata, pois não dá tempo para o convívio familiar. Aqui na Delga já temos 40 horas com sábados alternados, o que mostra que avançar é possível”, explicou Claudionor.
Para Diego Goulart, o Diegão, coordenador do CSE (Comitê Sindical de Empresa) na Delga, a presença de um ministro no chão da fábrica é resultado de décadas de organização sindical. “Isso é o que permite aproximar os trabalhadores do Executivo. Debatemos nossas pautas, o momento político e a necessidade de representação na Câmara dos Deputados. Os trabalhadores querem apoiar quem defende nossos interesses”, concluiu.
Tramitação e desafios
A proposta para redução da jornada e fim da escala de trabalho 6×1 entra agora em uma fase de tramitação institucional. O debate segue centralizado na CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) da Câmara dos Deputados. O presidente da Câmara, Hugo Motta, encaminhou formalmente a proposta na segunda-feira (9).

Para garantir uma análise robusta, serão discutidas de forma conjunta duas PECs (Propostas de Emenda à Constituição) que se complementam, mas possuem nuances distintas. A primeira é de autoria da deputada Érika Hilton (PSOL-SP). O texto da parlamentar prevê adoção de uma jornada de quatro dias de trabalho por três de descanso, limitando a carga horária a 36 horas semanais. A segunda é representada pela PEC do deputado Reginaldo Lopes (PT-MG). Diferente da proposta de Hilton, o texto de Lopes sugere uma transição gradual: a redução das atuais 44 horas para 36 horas semanais ocorreria em um prazo de dez anos.
Atualmente, o artigo 7º da Constituição Federal estabelece que a jornada padrão é de oito horas diárias e 44 horas semanais, o que permite o uso massivo da escala 6×1. O caminho no Legislativo exige mobilização e, como alertado por Boulos, a correlação de forças no Congresso ainda é majoritariamente favorável aos setores patronais. O Sindicato reforça que a pressão e conscientização política no chão de fábrica serão necessários para transformar esses projetos em leis que garantam, finalmente, o direito ao descanso e à dignidade.
