Pejotização no STF: Sindicato alerta para tentativa de esvaziar Justiça do Trabalho

Enquanto país debate fim da escala 6x1, parecer enviado ao STF abre portas para trabalho sem descanso semanal, férias ou 13º. Sindicato convoca mobilização contra retrocesso

Foto: Adonis Guerra

O cenário das relações laborais no Brasil enfrenta uma ameaça sem precedentes. Um parecer do procurador-geral da República, Paulo Gonet, enviado ao STF (Supremo Tribunal Federal) no último dia 4, defende não apenas a legalidade da “pejotização”, mas algo ainda mais drástico: que a Justiça Comum, e não a Trabalhista, decida se há fraude nessas contratações. Na prática, isso retira do trabalhador sua principal rede de proteção, transformando direitos conquistados em meros termos comerciais.
Para o diretor executivo do Sindicato, Luiz Carlos da Silva Dias, o Luizão, o julgamento no STF (Tema 1.389) pode autorizar um “libera geral” catastrófico. “A consequência disso pode ser o fim dos contratos de trabalho como conhecemos hoje, transformando tudo em prestação de serviço”, adverte o dirigente.
Segundo Luizão, o impacto vai muito além da carteira assinada. Ele destaca que a migração para o Direito Civil aniquila a capacidade de reação do empregado. “O trabalhador deixaria de recorrer à Justiça do Trabalho para reivindicar direitos. Se sentir-se prejudicado, teria que buscar a Justiça comum, onde a relação passa a ser vista como comercial. Se o juiz entender que o contrato foi cumprido formalmente, não caberia mais nada a reclamar”.
A análise de Luizão aponta para um efeito dominó que atinge o coração do Estado brasileiro. Sem o vínculo empregatício formal, cessa a contribuição patronal e a regularidade do aporte do trabalhador, inviabilizando a Previdência Social a longo prazo. “Você compromete o sistema de habitação porque o FGTS [Fundo de Garantia do Tempo de Serviço] é quem financia grande parte dessa política. Enfim, desmonta-se toda uma estrutura. É um abalo profundo no Estado organizado”, pontua.

Contradição e retrocesso
Enquanto a sociedade debate o fim da escala 6×1, a pejotização irrestrita caminha no sentido oposto. Luizão enfatiza que esse modelo elimina o controle de jornada. Sem a proteção da CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), o trabalhador pode ser submetido a expedientes de 14 ou 16 horas, sem descanso semanal, nem férias ou décimo terceiro. “O que conquistamos de um lado pode cair por terra se essa tese avançar”, alerta o diretor.
A tese de Gonet, que aguarda decisão sob relatoria do ministro Gilmar Mendes, já mantém mais de 34 mil processos suspensos. O parecer sugere que a Justiça do Trabalho só atue se o contrato for previamente anulado pelo juízo cível — um obstáculo burocrático que desencoraja qualquer defesa.
Diante desse cenário onde o empregador dita regras sem limites, a mensagem do Sindicato é clara: “O tom é de alerta. Os trabalhadores precisam estar atentos e construir grandes mobilizações para impedir um retrocesso dessa dimensão. Com um contrato meramente comercial, o trabalhador fica sem instrumentos reais de defesa”, conclui Luizão.