A força da escravidão no pensamento da classe dominante

No domingo do dia 13 de maio de 1888, foi promulgado pela princesa Isabel o Decreto Imperial 3.353, que ficou conhecido como “Lei de Áurea” e acabou com o estatuto da escravidão no Brasil.

A versão da classe dominante para a abolição da escravidão, um dos acontecimentos fundamentais da nossa história, exclui as lutas dos escravos, dos negros “livres” e dos opositores do regime escravista. O movimento abolicionista, que mobilizou trabalhadores de diversas categorias na luta, ainda é pouco estudado entre nós, reforçando a imagem de uma abolição concedida pelo Estado imperial benfeitor.

Infelizmente, os livros didáticos não explicam os verdadeiros motivos para a manutenção da escravidão. Em primeiro lugar, os altos lucros do comércio de escravos que proporcionavam fortuna e poder aos traficantes desse nefasto comércio de seres humanos. Em segundo lugar, o interesse na manutenção do grande latifúndio nas mãos de poucos, que concentravam a propriedade da terra, de escravos e de poder, associada à decisão de não promover a reforma agrária e democratizar o acesso à terra em território brasileiro, como ocorreu em outros países.

Os livros também não abordam a exclusão dos negros no processo de integração social após a abolição. Não foram adotadas políticas de qualificação profissional, de distribuição de terras ou de acesso à moradia para os ex-escravos, que foram lançados a sua própria sorte. Dessa forma, os negros ficaram à margem da sociedade e tiveram que se organizar e lutar com todas as suas energias para superar os enormes entraves sociais para sua integração social, incluindo as terríveis marcas do preconceito racial, que não desapareceram com a assinatura da Lei Áurea. Ao contrário, até hoje nos deparamos com esse fantasma na nossa sociedade. 

A Coroa portuguesa, associada aos interesses da elite, afirmava que a manutenção da escravidão no Brasil era uma questão fundamental para a economia da Colônia. Quando o Brasil passa à condição de nação independente, a manutenção da escravidão tornou-se uma questão nacional. Os dirigentes políticos da jovem nação diziam que “sem os braços escravos, a economia nacional não sobreviveria”.  

Em pleno pico da pandemia, assistimos ao triste espetáculo do presidente da República convocando os trabalhadores a voltarem ao trabalho, caso contrário, segundo ele, a economia do país entrará em colapso. Afirmações como “A indústria está na UTI” ou “Haverá mortes de CNPJs” são alardeadas por empresários com a anuência do presidente. Mais uma vez, vemos o garrote no pescoço dos que trabalham, que são obrigados a colocar a sua saúde e a sua vida em risco, sob o argumento da “razão nacional”. A mesma “razão” que sempre protegeu os ricos e sacrificou os pobres.       

O prefeito de Belém, Zanaldo Coutinho, anunciou, dia 7, que o trabalho doméstico passa a ser essencial durante o lockdown (confinamento) na cidade.  Portanto, mulheres trabalhadoras, na sua maioria negras e indígenas, podem colocar em risco sua saúde e sua vida. Por outro lado, com a falta de vagas nos hospitais, a elite paraense paga cerca de R$ 40 mil por um voo de Belém a Brasília em aeronave equipada com UTI, equivalente a 63 meses dos ganhos dos mais pobres da região Norte. Se o voo for para São Paulo, o valor pode chegar a R$ 200 mil.

Mais uma das imensas contradições da nossa sociedade que nos afrontam e nos indignam nesses dias tão difíceis que vivemos. Um exemplo explícito de que a mentalidade da “Casa Grande” e da “Senzala” não terminou em 13 de maio de 1888. A força da escravidão no pensamento da classe dominante, no que ele carrega de mais desumano, continua a nos rondar, e com mais intensidade ainda, nestes tempos de autoritarismo sem tréguas contra a classe trabalhadora.

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