“A gente vai pra matar”

“A história da pistolagem no País se confunde com a história da elite brasileira – afirma a socióloga Peregrina Cavalcante, autora do livro Como se fabrica um pistoleiro, resultado de dois anos e meio de pesquisas no interior do Maranhão, Piauí e Ceará, para sua tese na Universidade Federal do Ceará, onde é professora.

Em entrevista à Rádio Nacional da Amazônia, sobre a provável ligação entre as pistolagens do Sul do Pará e a de Unaí (Minas Gerais), Peregrina explicou que a exportação e o intercâmbio de pistoleiros são práticas comuns, por uma questão de segurança para os envolvidos. A socióloga conta que a profissão de matador de gente começa cedo, com garotos que desde os 15 anos de idade começam a treinar para se tornarem pis-toleiros.

O matador de gente, conclui a professora, foi construído historicamente, desde quando o Brasil foi colonizado por meio do extermínio brutal dos índios.

Impunidade
Peregrina cita as conclusões de um velho delegado de polícia que já conseguiu prender alguns pistoleiros que acabaram condenados, fato considerado raro. O delegado resume no livro: “A impunidade é a responsável pela permanência da pistolagem no País”.

Para o delegado, a impunidade ainda existe no Brasil porque, geralmente, “o patrão do pistoleiro é influente na política regional , tanto que, logo após o assassinato, o pistoleiro é transferido por ele para outro Estado, de onde lhe é enviado, em troca, um pistoleiro novo, numa verdadeira rede do crime”.

O pistoleiro Miranda, ouvido no livro, resume o perfil psicológico do matador de aluguel: “Olha, se o patrão chegar para mim e mandar matar o Papa, não me interessa o que o Papa fez, mas o Papa vai morrer”. O mesmo Miranda confirma a frieza dos profissionais do ramo: “A gente vai é pra matar, não é pra brigar. Antes de atirar, sempre me benzo com a arma para tudo dar certo. Depois do serviço realizado, vou a uma igreja pedir perdão”.