A outra face do empreendedorismo

O pensamento liberal preconiza a primazia do mercado e a liberdade individual para prosperar por meio do próprio esforço, cuja forma mais enaltecida nos últimos anos tem sido o “empreendedorismo”, como uma espécie de espírito do nosso tempo.

Foto: divulgação

Se formos procurar o significado de “empreendedor”, vamos encontrar definições como: “aquele que sabe identificar as oportunidades e transformá-las em uma organização lucrativa”. Ou “o indivíduo que é criativo, inovador, arrojado, que estabelece estratégias que vão delinear seu futuro”.

Nessa perspectiva, o desemprego é visto como um problema individual e não como um problema social. Ou seja, o desempregado é o indivíduo que não se preparou profissionalmente ou não foi suficientemente criativo e ousado para encontrar uma alternativa de geração de renda.

Com a aceleração da crise de desemprego, a partir de 2016, ocorreu uma profusão do chamado emprego informal e precário pelos aplicativos que a mídia tratou como novas formas de empreendedorismo. Exaltando as “vantagens” da autonomia, da não existência da figura do patrão, da maior flexibilidade no uso do tempo.

Mas, passado algum tempo, podemos constatar que esse deslumbre com o trabalho informal não passou de mais um dos muitos “cantos de sereia” que vendem para a classe trabalhadora.

A realidade está muito longe da prosperidade e do bem-estar anunciados pelos difusores do empreendedorismo, o que existe é mais uma forma de exploração intensa da mão de obra que atinge principalmente os jovens negros da periferia.

Uma pesquisa realizada em julho de 2019 pela Associação Aliança Bike revelou o perfil desses trabalhadores ciclistas: a expressiva maioria é do sexo masculino e de negros, 99% e 71%, respectivamente. Dentre estes, 50% são bastante jovens (entre 18 e 22 anos). A pesquisa revelou também que 57% dos entregadores trabalham todos os dias da semana e cumprem jornadas de até 12 horas diárias e cerca de 30% trabalham em jornadas maiores ainda.

Todo esse esforço diário resulta em ganhos de R$ 996 por mês (na média), valor que fica pouco abaixo do salário mínimo que, à época da pesquisa, era de R$ 998. Deve-se ressaltar que o pico de trabalho dos entregadores é justamente nos horários de almoço e jantar, fazendo com que esses trabalhadores não tenham tempo suficiente para realizar suas refeições. Da mesma forma, há o perigo representado pelo alto grau de exposição diária aos acidentes no trânsito, que não são considerados como acidentes de trabalho.

Essa imensa população de trabalhadores de aplicativos, que já atinge mais de quatro milhões de pessoas, é a expressão mais acabada da visão da elite econômica dominada pelo pensamento liberal sobre como devem funcionar as relações de trabalho no presente e no futuro. Por isso, é fundamental nos solidarizarmos com esses trabalhadores, construindo estratégias de lutas comuns que rompam com essas práticas de super exploração, que aprofundam ainda mais a desigualdade social e dificultam a organização da classe trabalhadora.

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