A Questão racial e a pandemia no Brasil

A maioria dos livros didáticos narra a promulgação da “Lei Áurea”, de 13 de maio de 1888, pela princesa Isabel, que pôs fim ao estatuto da escravidão no Brasil, como um ato de benevolência da princesa, não por acaso ela foi chamada de “a redentora”. Muito longe disso, a decretação do fim da escravidão não foi uma concessão do Império brasileiro, mas o resultado de uma longa e persistente luta de homens e mulheres negras pela liberdade desde que a escravização foi instituída no século XVI.

Foto: Divulgação

No século XIX, a resistência à escravidão ficou mais conhecida pela ação do movimento abolicionista, mas mesmo assim, ele é mais lembrado pela atuação dos políticos brancos Joaquim Nabuco e Rui Barbosa, que embora tivessem um papel importante na repercussão política do abolicionismo, estavam muito aquém da amplitude e da complexidade do movimento abolicionista como movimento popular e de resistência.

Além de tardia, a abolição foi inconclusa. Pesquisas realizadas entre 1º de março e 31 de julho de 2020, pelo Instituto Polis, revelaram que a pandemia vitimou mais fortemente a população negra. Morreram 250 homens negros a cada 100 mil habitantes contra 157 mortes entre os homens brancos. Entre as mulheres, são 140 mortes para as negras e 85 para as brancas.

Sabemos que o vírus não faz escolha na hora de infectar, porém as péssimas condições de saneamento básico, moradia e alimentação, que comprometem a capacidade de prevenção e de acesso à saúde, são fatores que explicam a maior mortalidade da população negra, que atinge 75% da população pobre da cidade de São Paulo.

Esse diagnóstico, além de escancarar a desigualdade social com recorte de raça, demonstra também as consequências históricas da não inclusão social da população negra depois da abolição da escravidão. Homens negros e mulheres negras foram excluídos socialmente pelas classes dominantes que se recusavam a aceitá-los como cidadãos e cidadãs plenos de direitos. Na atual pandemia, a população negra, mais uma vez, está sujeita à sua própria sorte. Triste Brasil.

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