“A união dos metalúrgicos salvou minha vida”, diz Betão

Um dos homenageados no ato em repúdio à perseguição política aos trabalhadores do ABC pela ditadura militar será Alberto Eulálio, o Betão, primeiro coordenador da Comissão de Fábrica dos Trabalhadores na Ford. O evento acontecerá no próximo sábado, dia 1º, às 13h, no teatro Cacilda Becker, em São Bernardo.

Em relato à Tribuna, Betão contou o que viveu durante o período militar e como foi difícil garantir as conquistas antes e depois da criação da representação sindical na Ford durante aquela época.

Trabalhei na Volks de 1966 a 1974 e fui para a Ford em seguida.Lá me demitiram quatro vezes por causa de greves. Em 1981 entrei na diretoria executiva do Sindicato. Dois anos depois fui cassado porque a Ford não queria que representasse os trabalhadores. Mas, na verdade, tanto eu quanto outros companheiros fomos demitidos pela ditadura. Tudo por causa de nossa luta pelos direitos da companheirada.

Antes de organizarmos a Comissão de Fábrica, havia na Ford apenas alguns representantes, nenhum com tempo para o trabalho sindical. Por volta de 1981, a Ford demitiu 400 trabalhadores. Em resposta paramos a fábrica para tentar a readmissão deles. Como não tivemos o sucesso esperado, aproveitamos a mobilização para discutir a criação da Comissão de Fábrica.Para isso fizemos uma grande passeata dentro da fábrica. Com a pressão e a tentativa dos trabalhadores em invadir a sala de Recursos Humanos, representantes da montadora aceitaram conversar. E o episódio gerou uma conquista importante, a criação de uma comissão provisória dentro da fábrica.

Dividimos a fábrica em dez áreas e fizemos uma eleição por área para eleger os representantes de cada uma. Os eleitos tinham três dias livres, com meio período cada, para conversar com os trabalhadores. A dificuldade seguinte foi encontrar a melhor forma de o trabalhador fazer suas denúncias, já que a repressão, tanto dentro quanto fora da fábrica, não permitia. Acabávamos divulgando os problemas pela Tribuna Metalúrgica, que segue até hoje como a voz do trabalhador.Inclusive em uma de nossas muitas greves, um peão desenhou uma tartaruga para representar como o movimento deveria acontecer. O desenho acabou destaque no jornal e batizou o movimento como Greve Tartaruga.

A confiança na Comissão de Fábrica desde esta época já era muito grande, pois o peão se sentia protegido porque a gente cobrava na raça os direitos deles. Outro instrumento importante era a rádio peão para que todos ficassem sabendo o que acontecia.

Durante a ditadura não sofremos qualquer tipo de abuso por parte da segurança da empresa, mas não havia respeito e o chefe entregava os trabalhadores por qualquer coisa ao departamento de Relações Trabalhistas, o RT.

Não fui preso, mas tive o mandato cassado em 1983 pela ditadura militar. Respondi a um processo por greves e a solidariedade e união dos metalúrgicos salvou a minha vida com o apoio necessário que recebi para continuar a luta. O ato do dia 1º de fevereiro lembra os 50 anos do golpe militar, uma época repressiva, cheia de tortura. A juventude nem tem ideia de como foi difícil conquistar a democracia em que vivemos hoje.Muitas vidas foram perdidas, demissões, famílias desestruturadas. Esta manifestação deve ter a participação em massa dos trabalhadores para que ouçam os relatos vividos na época. A gente deu o primeiro passo.Ainda temos de conquistar muito mais. Só quem viveu sabe o que significa o peso da expressão ditadura militar. Com o ato vou reviver a vontade de mudar a história do nosso País, pois a luta não pode parar”.

Da Redação