Cala a boca, Galvão ganha o mundo e cala a TV Globo

Galvão Bueno

Até a TV Globo, num vacilo, exibiu a faixa anti-Galvão durante o jogo Brasil x Coreia

Desde 10 de junho, véspera do início da Copa do Mundo 2010, não há assunto mais comentado no Twitter do que a campanha “Cala Boca, Galvão”. O que era para ser mais uma “homenagem” qualquer ao locutor esportivo Galvão Bueno, da TV Globo, virou uma das mais criativas gozações na história da internet.

Por André Cintra

Uma vez consagrada na web, a campanha ganhou ainda mais visibilidade, terça-feira (15), durante a estreia do Brasil na Copa do Mundo, contra a Coreia do Norte. O jogo ocorreu no estádio Ellis Park, em Johanesburgo, na África do Sul. Logo no começo da transmissão pela TV, as câmeras exibiram uma faixa levantada por torcedores brasileiros com o famigerado “Cala Boca, Galvão”. Minutos depois, cadê a faixa?

Na internet, correu a versão de que a Globo era a responsável pelo fim do protesto. A emissora lançou uma nota pública para negar tudo e dizer que acha até bem-humorada a campanha anti-Galvão. O próprio Galvão Bueno, entrevistado pelo engraçadinho Tiago Leifert, declarou que “faz parte, é muito legal – a gente entra na casa das pessoas, elas têm o direito de brincar”. Que bom: a Globo, sempre simpática, nos dá autorização para tirar onda dela…

Verdade é que, àquela altura, o “Cala Boca, Galvão” já era um hit também no YouTube, graças ao clipe abaixo, postado no último domingo (13) e narrado em inglês. Segundo a história fantasiosa apresentada no vídeo, Galvão seria um “tipo muito raro de pássaro nativo do Brasil” e ameaçado de extinção. Os últimos exemplares na Amazônia pertenceriam a espécie Silentium Galvanus e estariam sob a proteção de um instituto também inexistente. “Help us save the Galvao birds” (“Ajude-nos a salvar os pássaros Galvão”), ironizava-se.

Sucesso no Brasil, a provocação a Galvão Bueno correu o mundo, a ponto de virar notícia em jornais estrangeiros como The New York Times e El País. O Times, aliás, definiu o narrador de forma nada carinhosa: uma “máquina bombástica de clichês”. Uma matéria de Marcel Merguizo, na Folha.com, só deu razão ao tradicional diário norte-americano:

Pérolas, clichês, ufanismo? Na estreia do Brasil contra a Coreia do Norte (2 a 1), Galvão poupou frases clássicas de suas transmissões, como “Quem é que sobe?” [dita apenas uma vez] ou “Sai que é sua…” [nenhuma]. Obviamente porque os norte-coreanos não levaram perigo ao goleiro Julio César. Quer dizer, levaram uma vez.

Galvão, aliás, é o termômetro do torcedor na partida. Quando o Brasil estava mal em campo, ele repetia: “Bate pro gol, bate pro gol” [fez isso seis vezes, todas no primeiro tempo]; “Tá na hora de jogar” [três vezes]; e “Prepare o seu coração” [outras três], em uma espécie de substituição ao famoso “Haja coração”.

Há também a categoria das frases feitas para determinada situação. Escanteio do Brasil: “Essa jogada é forte” [três vezes]; para chutes de fora da área “Solta a bomba” [outras três]; e agora é tradicional narrar gol com “Ééééé do Brasil” precedido por “Olha o gol, olha o gol”.

(…)

Pérolas foram poucas. A mais dolorida aos ouvidos ocorreu no intervalo, quando pediu para os telespectadores ouvirem o silêncio no estádio: “Eu vou parar de falar e vocês ficam com o silêncio do estádio”. E, por alguns segundos, mesmo sem querer, ele entrou na campanha “Cala Boca Galvao”.

As frases filosóficas ficaram para o segundo tempo, já com a seleção vencendo o jogo. “O melhor psicólogo para um centroavante é a rede do adversário, não tenha dúvidas disso”, filosofou Galvão Bueno, referindo-se à falta de gols de Luís Fabiano.

Depois, apenas o velho “Ergue os braços o árbitro Viktor Kassai” e fim de jogo.
 

Com ou sem o consentimento do locutor e de sua emissora, já faz uma semana que o “Cala Boca, Galvão” está no topo do “Trending Topics” do Twitter – a lista dos temas mais comentados do site. Só na hora do jogo entre Brasil e Coreia, eram cerca de 50 novos tuítes por minuto. A expressão “Boca Galvão” aparece igualmente entre os assuntos mais comentados.

O pesadelo de Galvão e da Globo não tem data para terminar. Um flash mob mundial está previsto para o próximo domingo, às 18 horas, quando internautas de todo o muno devem ir às ruas para imitar um pássaro e gritar, em alto e bom som, “Cala Boca, Galvão”. O vídeo da falsa campanha para salvar o pássaro Galvão já se aproxima de 750 mil visitantes no YouTube – sem contar suas versões.

Em 1974, ao debutar numa Copa do Mundo, Galvão Bueno viveu um dos maiores vexames de sua carreira. Na transmissão de uma das partidas do Mundial na Alemanha, inverteu as seleções em campo e narrou parte do jogo às avessas. Além disso, era o começo de um tabu da seleção brasileira e da fama de pé-frio do locutor – que teve de esperar mais 20 anos e cinco Copas para, abraçado a Pelé, soltar o eufórico “É tetraaaaa”. Agora são os internautas brasileiros que gritam para ele como nunca: “Cala Boca, Galvão!”.

Do Vermelho