Clipping 8 de novembro de 2021

Manchetes:

Bolsonaro esvazia fundos para fiscalização trabalhista (Folha)

‘Bico’ avança e mais 2 milhões de informais recebem até um salário (Estadão)

Reajuste nos transportes pressionará inflação em 2022 (O Globo)

Inflação já pressiona os resultados das empresas (Valor)


Valor

VW investe para manter fábricas no Cone Sul

Montadora renova linha para dar sobrevida a carros a combustão fabricados na América do Sul, especialmente Brasil e Argentina

Por Marli Olmos

A Volkswagen saiu na frente entre as montadoras que vão investir nas fábricas brasileiras para dar sobrevida aos carros a combustão produzidos e vendidos na América do Sul. É a primeira empresa da fase pós-pandemia de covid-19 a anunciar um ciclo de investimentos mais longo, até 2026. O novo plano, que somará R$ 7 bilhões, envolve, sobretudo, o desenvolvimento de uma nova família de veículos.

A empresa alemã decidiu, portanto, continuar a produzir no Brasil e na Argentina num momento em que a opção global por carros elétricos põe em xeque a sobrevivência dessa indústria na região. A elaboração dessa estratégia não foi trivial. Não é fácil para a subsidiária de uma companhia que na Europa já decidiu somente desenvolver carros elétricos pedir à matriz autorização para gastar dinheiro em novos modelos a combustão.

Vários fatores, no entanto, credenciaram a filial sul-americana do grupo alemão a obter esse aval. O principal é a certeza de que a região está longe de oferecer a mesma infraestrutura e os incentivos que aceleraram o processo de eletrificação nos países desenvolvidos. Mas, ao mesmo tempo, o Brasil mantém relevância no mercado global. Em 2020, o país ficou na nona posição entre os maiores produtores de veículos do mundo e na sétima entre os maiores mercados.

Não é lógico um país onde se vendem mais de 2,5 milhões de veículos por ano depender exclusivamente da importação. Os dirigentes da filial latino-americana da Volks também teriam dificuldades para convencer a matriz sobre a necessidade de investir se a região continuasse a dar prejuízos. Mas a operação encerrará 2021 com lucro. “Depois de muitos anos de prejuízos”, disse, aliviado, na sexta-feira, o presidente da Volks na América Latina, Pablo Di Si.

Ele não revelou dados financeiros e nem tampouco por quanto tempo a montadora acumulou perdas. Disse apenas que o fluxo de caixa também é positivo. O executivo atribuiu o resultado a três medidas importantes tomadas nos últimos anos. A que teve mais peso para garantir a lucratividade foi a renovação total da linha de produtos ao longo dos últimos cinco anos. As novidades atraíram mais clientes e levaram a Volks a recuperar espaço perdido para a concorrência.

Além disso, Di Si passou boa parte dos últimos meses no comando de negociações com os representantes dos sindicatos de trabalhadores das três fábricas de carros e uma de motores que a montadora tem no Brasil. Além das outras duas na Argentina. Conseguiu, com isso, entendimentos para acordos trabalhistas mais flexíveis. “E também apertamos o cinto na companhia”, destaca.

O novo ciclo de investimentos, segundo ele, incluirá linhas especiais do BNDES, além de empréstimos de outros bancos. Não estão, no entanto, previstos recursos vindos da matriz. O primeiro veículo da nova família, chegará ao mercado em 2023 com o nome de Polo Tracker, mais um utilitário esportivo. A nova linha gradativamente substituirá os modelos de segmentos mais populares. O Fox já saiu de linha e o próximo será o Gol, um dos ícones da história da indústria automobilística no Brasil.

Segundo Di Si, o modelo será produzido ainda em 2022. O executivo afirma que a renovação de produtos é necessária devido à mudança na legislação de segurança veicular. O Brasil está prestes a entrar na fase da legislação que exigirá que todos os veículos sejam equipados com o controle de estabilidade, um sistema, com sensores, que ajuda o motorista a evitar derrapadas quando entra em velocidade muito alta numa curva.

O chamado ESP ou ESC faz com que o carro volte à trajetória correta. Lançado em 1980 como uma espécie de sucessor do Fusca, o Gol passou por várias gerações e há mais de dez anos superou o Fusca em volume de vendas. Foi líder de mercado durante 27 anos, conseguindo também boa aceitação na versão exportada a mercados vizinhos.

Para cumprir a legislação local, o veículo também deixará de ser vendido na Argentina. Na renovação da linha, carros antes populares darão espaço a veículos que serão mais caros por incluírem mais itens de segurança e de conectividade. “É um preço que teremos que pagar; e não só a Volks”, destaca Di Si.

Mas não é apenas na renovação de produtos que a Volks está de olho. Nesse setor, Di Si é um dos maiores defensores do etanol como energia limpa alternativa. Uma parte do novo investimento anunciado na sexta será usada na expansão da pesquisa sobre biocombustíveis.

A montadora alemã já havia anunciado a intenção de fazer do Brasil um centro de desenvolvimento de veículos híbridos movidos com etanol, tecnologia que a empresa pretende vender a outros países também distantes da eletrificação veicular, mas com potencial para plantar cana de açúcar, como a Índia.

Na entrevista em que anunciou o novo ciclo de investimentos, Di Si afirmou ser um sonho seu ver o etanol usado não apenas nos veículos a combustão e híbridos como também se transformando em célula de combustível. Essa etapa requer mais tempo de pesquisas. Mas a ideia é que no futuro, o etanol seja utilizado para gerar eletricidade em veículos elétricos.

Ter uma fábrica de carros elétricos no Brasil hoje seria sonhar alto demais, afirma o executivo da Volks. “Custaria bilhões de euros”. E exigiria, diz Di Si, recursos não apenas das empresas, mas do poder público, que tem outras prioridades. “É preciso descarbonizar, mas também cuidar da parte social e da economia de um país. Se tivermos uma economia destruída teremos uma sociedade cada vez mais injusta”.

Automotive Business

Toyota supera crise dos chips, bate recorde e aumenta lucro em 48%

Resultados globais do trimestre vão na contramão da concorrência, que apresentou forte queda nos ganhos

A Toyota pode ainda estar enfrentando restrições na sua produção global devido à escassez de semicondutores, mas a montadora parece ter encontrado os meios para superar as dificuldades financeiras impostas pela crise dos chips, como revela o balanço do seu segundo trimestre fiscal, divulgado na quinta-feira, 4.

A montadora registrou um aumento de 48% no lucro operacional comparado ao mesmo período de 2020. O valor subiu de 506 bilhões de ienes (US$ 4,53 bilhões) do ano anterior para os 749,9 bilhões de ienes (US$ 6,72 bilhões) no segundo trimestre fiscal de 2021, que se encerrou em 30 de setembro – o ano fiscal da marca termina em março. 

O diretor financeiro Kenta Kon explicou que algumas medidas combinadas contribuíram para a Toyota alcançar números tão favoráveis. Entre elas está um controle de custos muito agressivo aliado ao melhor gerenciamento de estoque, o que resultou em um lucro maior apesar da redução na produção.

Recorde no trimestre

Como havia uma baixa oferta de veículos e uma alta demanda no mercado, foi possível economizar também ao diminuir os níveis de incentivos e os custos de marketing. Outro fator que pesou nessa receita foram as taxas de câmbio mais favoráveis, que impulsionaram o valor de seus ganhos em dólares quando convertidos para o iene japonês.

“O volume de produção diminuiu globalmente, mas nossos fornecedores, fábricas e revendedores fizeram grandes esforços para fornecer o maior número possível de carros. Porém, em comparação ao nível anterior, embora exista algum risco de queda na produção, ela vai se recuperar um pouco”, disse Kon.

Lucros de GM, VW e Ford caíram

Diante desse cenário positivo, a empresa aproveitou para elevar suas previsões de lucro para o ano inteiro para níveis próximos do recorde histórico, ao mesmo tempo que reduziu a estimativa do total de vendas.

O lucro líquido também apresentou uma melhoria impressionante ao subir 33%, alcançando a marca de 626,6 bilhões de ienes (US$ 5,61 bilhões), o que representa um recorde para o segundo trimestre fiscal da empresa.  No campo da receita, houve um aumento de 11,4%, chegando a 7,55 trilhões de ienes (US$ 67,6 bilhões), mesmo com as vendas globais caindo 0,5%, para 2,51 milhões de unidades.

Esses números revelam um ambiente muito mais positivo na montadora japonesa do que na maioria das suas concorrentes, que apresentaram queda no terceiro trimestre deste ano, período equivalente ao segundo trimestre fiscal da Toyota. A GM apresentou queda de 40% nos lucros, enquanto tivemos uma redução de 24% na Ford e de 12% na Volkswagen.

Automotive Business

Venda de eletrificados supera expectativas e cresce 74% no ano

Apesar da pequena participação no mercado, setor cresceu 10 vezes mais que a média nacional

O segmento de veículos eletrificados, que inclui híbridos e elétricos, está comemorando as vendas em alta, bem diferente do comportamento do mercado brasileiro como um todo. Enquanto os automóveis e comerciais leves registraram um tímido aumento de 7,7% neste ano, os eletrificados tiveram um salto de 74%, segundo números divulgados pela Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE) nesta sexta-feira, 5.

No acumulado de janeiro a outubro deste ano, foram emplacadas 27.097 unidades de modelos elétricos e híbridos sobre o mesmo período de 2020. Apenas em outubro, foram comercializados 2.823 veículos, o que representa um crescimento de 24% comparado ao mesmo mês do ano passado. Em relação a setembro de 2021, a variação positiva foi de 2,69%.

“Este tem sido um excelente ano para os veículos eletrificados. Tivemos muitas montadoras que fizeram lançamentos em 2021 e vamos superar facilmente nossa meta, com mais de 30 mil unidades. Devemos chegar a 32 mil ou 33 mil”, comemorou Adalberto Maluf, presidente da ABVE, que também é diretor de marketing da fabricante BYD.

Embora o desempenho do setor esteja muito acima da média de mercado, a entidade reconhece que os modelos eletrificados vêm mantendo esse ritmo acelerado há um bom tempo. “A verdade é que na média esse segmento tem dobrado a cada dois anos”, disse Thiago Sugahara, vice-presidente da ABVE e gerente de assuntos governamentais da Toyota.

Apesar dos números relativos serem vistosos, em valores absolutos a categoria ainda tem uma pequena participação nas vendas internas. No ano passado inteiro os eletrificados emplacaram apenas 19.745 unidades, que é menos do que o Chevrolet Onix vendeu em dois meses, na média. Esse volume representou 1% do mercado brasileiro em 2020, mas a participação deve subir em 2021 para cerca de 1,5% das vendas.

Estadão

‘Bico’ avança no País e paga cada vez menos

Número de brasileiros sem carteira assinada com ganho mensal de até 1 mínimo aumenta em 2 milhões desde 2019, e hoje já representa 55,6% dos que atuam por conta própria

A precarização do trabalho por conta própria, o popular “bico”, avança a passos largos, como reflexo do desemprego elevado e do fraco desempenho da economia. Entre o segundo trimestre de 2019 e o segundo deste ano, aumentou em mais de 2 milhões o número de brasileiros, sem carteira assinada ou qualquer vínculo formal, com remuneração máxima de um salário mínimo por mês (R$ 1,1 mil). No segundo trimestre de 2019, esse contingente representava 48,2% dos trabalhadores que atuavam por conta própria. Hoje, já é mais da metade (55,6%).

É o que revela estudo feito pela consultoria IDados a partir da Pnad Contínua do IBGE. O objetivo foi conhecer quem é o trabalhador por conta própria, praticamente a única forma de ocupação que cresce significativamente no País. O “por conta própria” é um informal que obtém remuneração a partir dos bens ou serviços que produz.

Atualmente, esse grupo soma mais de 25 milhões de pessoas, ou 28,3% dos ocupados. No período analisado, 709,5 mil começaram a exercer atividade nessa condição. Também o número de brasileiros com curso superior trabalhando por conta própria cresceu no período – em 643,6 mil pessoas.

Para Ana Tereza Pires, pesquisadora do IDados, o aumento de mais de 2 milhões recebendo até um salário mínimo e o acréscimo de cerca de 700 mil trabalhando por conta própria revela que, mesmo entre aqueles que já estavam nessa condição, boa parte passou a obter uma remuneração menor. “É uma maior precarização de um tipo de trabalho que sempre foi precarizado, face ao trabalho com carteira assinada.”

Ela atribui esse movimento à pandemia. Com muitos brasileiros desempregados há mais de dois anos, mesmo os mais qualificados aceitam trabalhar ganhando menos para escapar dessa situação.

Em 2015, a estudante Natália de Cássia Pereira Lopes, na época com 18 anos, começou a cursar a faculdade de Relações Internacionais. Seu sonho era ter um emprego com carteira assinada. Quatro anos depois, concluiu o curso e veio a frustração. “Fiquei dois anos (2019 e 2020) completamente desempregada e, com a pandemia, a situação piorou”, conta ela.

Em meados deste ano, Natália, que fala inglês e tem conhecimentos de espanhol, começou a trabalhar numa área totalmente diferente da qual se formou: virou editora de vídeos. Mas é um trabalho por conta própria, sem carteira assinada e que garante R$ 1 mil por mês. Segundo ela, é muito pouco para cobrir as despesas próprias e ajudar a mãe nos gastos da casa. “Topei porque preciso de alguma coisa.” Se estivesse na área, acredita que ganharia R$ 2,5 mil, no mínimo.

A história de Natália está longe de ser única. Economista da LCA Consultores, Bruno Imaizumi afirma que, num cenário de crise, com inflação em alta, normalmente o trabalhador fica mais flexível para se reinserir no mercado. Desse modo, ele aceita ganhar menos do que recebia anteriormente ou do que deveria ser remunerado, de acordo com a sua categoria profissional.

Isso aumenta a precarização do trabalho, especialmente na condição de quem o exerce por conta própria. “A qualidade do emprego em geral vem piorando: estamos tendo uma recuperação da quantidade de postos, mas, quando olhamos para a qualidade, há diversos indícios de piora e o avanço do trabalho por conta própria é um deles”, observa.

Fernanda Dias, de 37 anos, que vive em Porto Alegre (RS), tem uma história semelhante à de Natália. Quando se formou, em 2015, queria seguir carreira em administração de empresas. Cinco anos com inúmeras negativas de emprego e a pandemia a levaram a trabalhar por conta própria, confeccionando máscaras.

Com essa ocupação, afirma ela, consegue tirar cerca de R$ 1 mil por mês. O rendimento, no entanto, equivale a menos da metade da média salarial estabelecida pelo Conselho Federal de Administração para profissionais recém-formados na área.

Além do número crescente de pessoas com curso superior e também dos que recebem até um salário mínimo entre os que trabalham por conta própria, outra mudança de perfil captada pelo estudo da consultoria IDados, com base na Pnad Continua do IBGE, foi o aumento da fatia de trabalhadores brancos. Eles representavam 40,2% dos trabalhadores por conta própria no segundo trimestre de 2019, e essa fatia subiu para 42,6% no mesmo período deste ano.

Ana Tereza Pires, pesquisadora da consultoria, diz que esse é um indicador que está relacionado com a qualidade do emprego. “Geralmente, os brancos ocupam os postos com maior estabilidade”, observa. Com o aumento do desemprego, parte se tornou trabalhador por conta própria.

Na opinião de Ana Tereza, ainda é cedo para afirmar que a precarização do trabalho é uma tendência. Já Imaizumi acredita que ela veio para ficar. Para resolver esse problema, que na sua avaliação é estrutural, seria preciso melhorar a qualificação da mão de obra e criar condições para que a economia volte a crescer e gerar oportunidades de trabalho, especialmente para os mais jovens e recém-formados.

Folha de SP

Governo Bolsonaro desvia verba para fundos e esvazia fiscalização trabalhista

Ministério do Trabalho recomenda barrar recebimento de recursos e bens previstos em TACs do MPT

O governo Jair Bolsonaro (sem partido) passou a recusar recursos arrecadados em decorrência de infrações trabalhistas, usados diretamente para equipar grupos de fiscalização do próprio governo, e determinou que esses valores e bens sejam destinados ao FDD (Fundo de Defesa dos Direitos Difusos) ou ao FAT (Fundo de Amparo ao Trabalhador).

A mudança no uso de recursos e bens —como caminhonetes destinadas à atuação de auditores-fiscais do trabalho— esvazia a fiscalização trabalhista, em razão da forte dependência de gerências e superintendências regionais a bens, serviços e obras previstos nos TACs (termos de ajustamento de conduta) assinados pelo MPT (Ministério Público do Trabalho).

Auditores, integrantes do MPT e a Justiça do Trabalho apontam um retrocesso na imposição feita pelo governo Bolsonaro, capitaneada pelo Ministério do Trabalho e da Previdência. A medida pode paralisar fiscalizações de trabalho escravo, acidentes de trabalho e trabalho infantil, segundo críticos da medida.

A mudança foi efetivada após a recriação do Ministério do Trabalho no fim de julho, uma ação de Bolsonaro para reacomodar na Esplanada um de seus principais aliados no campo político, Onyx Lorenzoni. Bolsonaro havia extinguido a pasta assim que chegou ao Palácio do Planalto, em 2019. O Trabalho havia sido agregado ao Ministério da Economia, de Paulo Guedes.

Um ofício do Ministério do Trabalho e da Previdência de 27 de outubro, obtido pela Folha, comunica a subsecretarias, coordenações e superintendências regionais a “impossibilidade de recebimento de bens patrimoniais ou recursos financeiros decorrentes de TAC ou aplicação de multas”. O ofício é assinado pelo secretário de Trabalho do ministério, Luís Felipe Batista de Oliveira.

Quando recebe uma denúncia, o MPT costuma acionar equipes de fiscalização formadas por auditores vinculados ao Ministério do Trabalho. Um relatório —sobre trabalho escravo, sobre um acidente de trabalho ou sobre outra questão relacionada— é enviado aos procuradores que integram o MPT, que podem, a partir daí, fazer um TAC com a empresa envolvida.

Valor

Custos preocupam pequenas indústrias

Micro e pequena indústria tiveram melhora no desempenho e no faturamento do segundo trimestre, aponta CNI

Pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI) verificou que as micro e pequenas indústrias apontam a falta ou alto custo de matéria-prima como o principal problema que enfrentaram no último ano. Os dados são do Panorama da Pequena Indústria, levantamento trimestral da entidade. No terceiro trimestre de 2021 as pequenas empresas transformação e construção indicam que o problema é o principal há cinco trimestres consecutivos. Para as

indústrias extrativas de pequeno porte, a principal dificuldade tem sido a carga tributária. O levantamento da CNI mostra ainda que o alto custo de energia também figura nas primeiras posições do ranking dificuldades do setor. “A questão energética é um ponto de atenção, dado o contexto de crise hídrica atualmente vivido no Brasil”, destaca o relatório técnico da CNI.

O faturamento dessas empresas aumentou no segundo trimestre. O mesmo ocorreu com o Índice de Desempenho, que registrou 48,3 pontos no terceiro trimestre, um resultado que está acima do índice médio do segundo trimestre de 2021, que foi de 46,5 pontos, e, também, acima da média histórica, que atingiu 43,3 pontos, e o Índice de Situação Financeira, que ficou em 42,6 pontos, pouco diferente do índice do trimestre anterior, com alta de 0,3 pontos.

Folha de SP

Governo vê baixas no PDT e PSB na PEC dos Precatórios, mas espera mais votos do centrão

Texto-base da PEC foi aprovado em primeiro turno por uma margem estreita, com apenas quatro votos acima do mínimo necessário

O governo avalia que perderá votos de partidos de oposição na próxima etapa de votação da PEC (proposta de emenda à Constituição) dos Precatórios, que permite a expansão de gastos públicos e viabiliza a ampliação do Auxílio Brasil para R$ 400 mensais prometida pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) em ano eleitoral.

O texto-base do projeto foi aprovado, em primeiro turno, na madrugada de quinta-feira (3) pela Câmara com o placar apertado. Foram 312 votos a favor da proposta, 144 contrários e 57 deputados não votaram. São necessários 308 votos para que a PEC receba o aval da Casa, numa votação em dois turnos.

O apoio de deputados dissidentes da oposição, principalmente do PDT e PSB, foi crucial para a vitória de margem estreita para o Palácio do Planalto. O PDT deu 15 votos a favor da PEC, e o PSB, 10. Isso provocou um racha no PDT, desencadeando o anúncio de que Ciro Gomes decidiu suspender temporariamente a pré-candidatura à corrida presidencial de 2022. No PSB, que costura aliança com o PT para as eleições do próximo ano, as traições tentam ser revertidas.

Integrantes do Palácio do Planalto e aliados do governo na Câmara, portanto, já trabalham com o cenário de que a pressão de partidos da oposição irá reduzir os votos nessas bancadas nas próximas votações da PEC —ainda falta concluir o primeiro turno e, depois, analisar a proposta em segundo turno no plenário da Casa.

No entanto, articuladores de Bolsonaro esperam um aumento de votos nos partidos de centro e centro-direita. Entre os deputados que não votaram no primeiro turno, o governo calcula que há potenciais votos no DEM, MDB, PSDB, PP, PSL e Republicanos.

Cerca de 30 deputados dessas siglas não se posicionaram na semana passada. A avaliação de aliados do Planalto é que cerca de 20 votariam com o governo se estivessem no plenário. Isso, então, deve compensar a perda de apoio em partidos de oposição. Governistas não acreditam que a pressão da cúpula do PDT e do PSB irá ter efeito na maioria dos 25 votos dessas siglas.

As próximas votações da PEC na Câmara estão previstas para começarem nesta terça (9). Mas o governo vai avaliar o quórum na sessão antes de colocar a proposta em análise. O objetivo é evitar risco de derrota diante da margem apertada de apoio ao texto.

Além disso, será preciso calcular o impacto da decisão da ministra Rosa Weber, do STF (Supremo Tribunal Federal), que determinou a suspensão de emendas parlamentares (emendas de relator) usadas em negociações políticas entre o Palácio do Planalto e o Congresso. Essas emendas são instrumentos para que deputados e senadores enviem recursos do Orçamento federal para projetos em suas bases eleitorais.

Atualmente, a principal moeda de troca é conhecida como emenda de relator. O dinheiro disponível neste ano é de R$ 16,8 bilhões. Cerca de R$ 1 bilhão foi liberado às vésperas da votação do texto-base, em primeiro turno, no plenário da Câmara.

A decisão liminar de Weber começará a ser julgada pelo plenário do STF nesta terça. Por isso, parte da base aliada do governo prefere adiar as próximas votações da PEC, previstas para essa semana. Ainda não há decisão sobre a postergação.

O governo tem pressa em aprovar a proposta na Câmara e, logo depois, no Senado, onde também precisa passar por dois turnos. Bolsonaro determinou, em outubro, o aumento do Auxílio Brasil para R$ 400, deflagrando uma crise entre as alas política e econômica do governo.

A solução para atender à demanda do presidente foi driblar o teto de gastos, propondo alteração no cálculo da regra fiscal na PEC dos Precatórios. Essa PEC, que já estava na Câmara, prevê um limite para pagamento de precatórios (dívidas da União reconhecidas pela Justiça), o que libera mais espaço no Orçamento.

As duas mudanças previstas na PEC —envolvendo o teto de gastos e os precatórios— têm potencial de abrir uma folga superior a R$ 90 bilhões no próximo ano, garantindo recursos para Auxílio Brasil, auxílio para caminhoneiros e compensar o aumento de despesas vinculadas à alta da inflação.

O aumento de gastos na área social é uma aposta de Bolsonaro e aliados dele para tentar fortalecer o presidente na disputa à reeleição de 2022. A votação do texto-base em primeiro turno da PEC, porém, é questionada por adversários de Bolsonaro.

Partidos de oposição e o ex-presidente da Câmara Rodrigo Maia (sem partido-RJ) já entraram com pedidos no STF para que seja suspensa a tramitação do texto. O principal argumento é que o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), adotou medidas irregulares na sessão da semana passada.

Aliado do governo, Lira flexibilizou algumas regras e editou um ato para permitir que deputados que estão em viagem autorizada pela Câmara possam votar remotamente. Isso beneficia o plano patrocinado por Bolsonaro.

Em outro revés do governo no STF, a ministra Rosa Weber, relatora do processo sobre a votação da PEC dos Precatórios, estabeleceu prazo de 24 horas para a Câmara dar informações sobre a aprovação do texto. Neste domingo (7), a ministra determinou um novo prazo de 24 horas para a Câmara ao analisar a ação movida por Maia, que foi apresentada no sábado (6).

Há também questionamentos sobre mudanças feitas de última hora no texto que foi aprovado. A alteração prevê que os precatórios ligados à área da educação sejam parcelados em três anos. No entanto, a estratégia costurada por Lira foi chamada de manobra pela oposição e deputados contrários à proposta, como o partido Novo.

Críticos do acordo argumentam que a mudança no texto da PEC só poderia ser feita se houvesse alguma emenda (sugestão apresentada por parlamentares) com o mesmo teor. De acordo com esse grupo, não havia como fazer a alteração de última hora. “Considerada a alta relevância do tema em debate, assino o prazo de 24 horas às autoridades impetradas, a fim de, querendo, prestem as informações que reputarem pertinentes, antes do exame do pedido de medida liminar”, decidiu Weber.

Para a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), a PEC representa um calote. Numa nota técnica, a entidade apontou inconstitucionalidades da proposta. O documento indica, por exemplo, que a PEC ofende o princípio de separação dos Poderes, pois os precatórios são emitidos pelo Judiciário.

Valor (análise)

Liminar de Rosa Weber expõe contradição do Congresso na manobra de emendas

Plenário do Supremo começa a decidir sobre o tema amanhã

MARIA CRISTINA FERNANDES

Os ministros do Supremo Tribunal Federal terão 24 horas, a partir da zero hora desta terça feira, 9 de novembro, para depositar seus votos em plenário virtual (aquele em que não há sustentação oral) sobre a liminar da ministra Rosa Weber que mandou dar publicidade às emendas do relator do Orçamento de 2019 e 2020 e suspendeu aquelas relativas à peça orçamentária de 2021.

As 49 páginas da peça deixam uma margem estreita para os ministros a rejeitarem. Como a Corte conta hoje apenas com 10 ministros, se Rosa Weber tiver mais quatro votos a favor da liminar, o empate favorece a relatora.

A lei 9868/99, porém, prevê que medida cautelar em ação direta de inconstitucionalidade precisa de maioria absoluta dos votos. Há, por outro lado, precedentes no sentido de o empate ser resolvido pelo “voto de qualidade” do presidente da Corte, expediente previsto no regimento do STF que conta o voto em dobro.

Mantida a liminar, o mérito da decisão da ministra estaria preservado. Para modular a decisão, evitando, por exemplo, a suspensão das emendas de relator de 2021 e estendendo a estas o critério de publicidade determinado para aquelas de 2019 e 2020, seria preciso derrubar a liminar e marcar o julgamento do mérito. O desgaste provocado pela votação da PEC dos Precatórios, porém, quando ficou evidenciado o peso das emendas de relator na obtenção de resultados em plenário de interesse do Executivo, joga pela aceitação da liminar.

O maior interessado na derrubada da decisão de Rosa Weber, o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), tem limites para pressionar o Supremo. Impeachment de ministro, por exemplo, é prerrogativa do Senado. Para essa pressão Lira precisaria contar com o Executivo. As emendas de relator, porém, apertam as margens da execução orçamentária. E, embora não seja o proponente da ação e tenha sua relação com o Legislativo lastreada nas emendas de relator, o Executivo pode acabar sendo o beneficiário da liminar, especialmente dada a insegurança da PEC dos Precatórios.

A costura política pela rejeição da liminar tem estreita sustentação jurídica. Na liminar de Rosa Weber fica claro que o expediente das emendas de relator, inicialmente instituído para corrigir omissões técnicas e legais da peça orçamentária, acabou por ser desvirtuado para conferir ao relator-geral do Orçamento a discricionariedade que havia sido negada ao Executivo pelo próprio Congresso nas normas que impuseram a impositividade ao Orçamento.

Até o chamado “Orçamento Impositivo”, instituído por duas propostas de emenda constitucional, a 86/2015, que tornou obrigatória a execução das emendas individuais, e a 100/2019, que a estendeu para as emendas de bancada, o Congresso se queixava de que o governo se valia do contingenciamento das emendas como um instrumento para gerir sua coalizão parlamentar.

Ficou consagrado, na Constituição, o princípio da execução equitativa e impessoal: “Considera-se equitativa a execução das programações de caráter obrigatório que atenda de forma igualitária e impessoal às emendas apresentadas, independentemente da autoria”. E é este princípio, aprovado quase por unanimidade na Câmara, que as emendas de relator violam.

A liminar de Rosa Weber é clara ao opor a sistemática estabelecida para os distintos tipos de emenda: “Enquanto as emendas individuais e de bancada vinculam o autor da emenda ao beneficiário das despesas, tornando claras e verificáveis a origem e a destinação do dinheiro gasto, as emendas de relator operam com base na lógica da ocultação dos congressistas requerentes da despesa por meio do estratagema da rubrica RP9, que atribui todas as despesas nela previstas, indiscriminadamente, à pessoa do relator-geral do Orçamento, que atua como figura interposta entre grupo de parlamentares incógnito e o orçamento público federal”.

A ministra valeu-se longamente de bem fundamentado acórdão do Tribunal de Contas da União sobre o expediente das emendas de relator. Voto do ministro Walton Alencar, referendado pelo plenário, atestou o aumento de 523% no número e de 379% no valor das emendas de relator apresentadas em 2020, em relação a 2019.

A decisão do TCU detalha as diligências infrutíferas feitas junto ao Executivo na tentativa de dar ao processo a transparência negada pelo Congresso. Em cada Pasta foi informado um procedimento distinto para sua execução, nenhuma deles transparente. “As informações extraídas das respostas às diligências expõem a inexistência de procedimentos sistematizados para o monitoramento e avaliação dos critérios de distribuição de emendas RP9, tal como ocorre, por exemplo, com emendas individuais”, diz o TCU.

Com base no relatório da Corte de Contas, Rosa Weber concluiu: “Por essas razões, tenho para mim que o modelo vigente de execução financeira e orçamentária das despesas decorrentes de emendas do relator viola o princípio republicano e transgride os postulados informadores do regime de transparência no uso dos recursos financeiros do Estado”.

A ministra tampouco deixou margem para a alegação de que se tratar de assunto “interna corporis” do Legislativo, como o fizeram, em argumentação enviada ao Supremo, a Presidência da Câmara, a Procuradoria-Geral da República e a Advocacia Geral da União.

 Ela se valeu de votos de muitos dos ministros que se debruçarão sobre sua liminar, como Gilmar Mendes, Edson Fachin e Luis Roberto Barroso, para sustentar que a jurisprudência do Supremo reconheceu o controle de constitucionalidade de práticas institucionais e comportamentos ativos e omissivos, atribuídos aos poderes públicos, que ostentem generalidade, impessoalidade e abstração, “justificando a intervenção judicial para a tutela de direitos fundamentais ou de interesses políticos e jurídicos socialmente relevantes”.

Folha de SP

Moro é cobrado a apresentar programa econômico liberal e temas além da corrupção

Prestes a se filiar ao Podemos, ex-juiz ensaia tratar de outras áreas em meio a expectativa de entusiastas

Bastou um tuíte do ex-ministro da Justiça Sergio Moro na última quarta-feira (3), em defesa do teto de gastos e da responsabilidade fiscal, para deixar entusiasmados alguns defensores de ideias liberais para a economia em busca de um candidato para apoiar em 2022.

“Aumentar o Auxílio Brasil e o Bolsa Família é ótimo. Furar o teto de gastos, aumentar os juros e a inflação, dar calote em professores, tudo isso é péssimo. É preciso ter responsabilidade fiscal”, escreveu o ex-juiz, que se filiará ao Podemos nesta quarta-feira (10), em Brasília, com a perspectiva de concorrer a presidente.

Conhecido pela pauta anticorrupção e pela defesa do endurecimento das leis contra a criminalidade, Moro é praticamente um neófito no tema que deve dominar a próxima campanha eleitoral, a economia.

Em declarações passadas, ele vagamente defendeu princípios liberais e elogiou o livre mercado como fonte de prosperidade. Mas está longe de ser considerado uma autoridade no tema, tanto que não conseguiu convencer nem sua futura legenda.

Poucas horas depois de sua defesa pública do teto, a maior parte da bancada federal do Podemos votou a favor da emenda constitucional que flexibiliza restrições fiscais e abre caminho para o novo Auxílio Brasil. Foram 5 votos a favor, 4 contra e 1 ausência.

Conforme suas pretensões de disputar a Presidência em 2022 avançam, Moro precisará detalhar o que pensa na área econômica, dizem aliados e simpatizantes. Eles também falam da necessidade de ampliar o rol de pautas para além da questão do combate à corrupção e se aprofundar em outros temas cruciais para uma campanha presidencial, algo que também está no radar do ex-juiz da Operação Lava Jato.

Impulsionado pelo discurso de defesa da ética, Moro abandonou a magistratura para assumir o Ministério da Justiça do governo Bolsonaro. Desentendeu-se com o presidente e pediu demissão em abril do ano passado.

Neste ano, Moro sofreu uma dura derrota no STF (Supremo Tribunal Federal), que o considerou parcial nas ações em que atuou como juiz federal contra o ex-presidente Lula (PT), também pré-candidato para 2022. Com isso, foram anuladas ações dos casos tríplex, sítio de Atibaia e Instituto Lula pela Lava Jato.

Diferentes pontos levantados pela defesa de Lula levaram à declaração de parcialidade. A ida de Moro para a equipe de Bolsonaro também pesou, assim como os diálogos entre integrantes da Lava Jato obtidos pelo site The Intercept Brasil e publicados por outros veículos de imprensa, como a Folha.

O ex-magistrado sempre repetiu que não reconhece a autenticidade das mensagens, mas que, se verdadeiras, não contêm ilegalidades. Na arena eleitoral que se desenha, o tema será um dos mais explorados pelos petistas para evidenciar contradições e fustigar o adversário.

“Moro não teve tempo ainda de falar sobre economia, mas, assim que sua filiação for concretizada, ele tratará deste tema fundamental”, diz o senador Alvaro Dias (Podemos-PR), um dos principais incentivadores da candidatura. “O que já nos parece claro é que ele é um liberal.”

Uma base programática para Moro deverá ser a própria campanha presidencial de Dias em 2018, quando o plano de governo adotava um linguajar bem ao gosto do mercado. Uma das metas, por exemplo, era “busca contínua de eficiência tanto no setor público como no privado através da adoção das melhores práticas mundiais”.

“Eu já naquela campanha falava em um limitador emergencial de despesas no primeiro ano de governo. Moro sabe que o equilíbrio das contas é fundamental, um desafio a ser perseguido por meio de uma agenda de reformas”, afirma o senador.

Um dos responsáveis pelo documento econômico do Podemos em 2018 foi o economista e consultor Luís Paulo Rosenberg, com décadas de experiência no mercado financeiro, e que se define como um “liberal com coração”.

“O casamento do combate à corrupção com uma ideia liberal para a economia pode dar um belo programa de governo para o Moro”, afirma Rosenberg, que diz não ter sido chamado ainda para discutir um plano para o ex-juiz. “Mas é um liberalismo levando-se em conta que estamos no Brasil, ou seja, que o mercado não resolve tudo”, diz.

Na eleição de 2018, os adeptos da defesa de um Estado mínimo, privatizações e abertura comercial foram seduzidos pela presença do economista Paulo Guedes na equipe de assessores do então candidato Jair Bolsonaro.

Egresso da Escola de Chicago, um dos principais centros difusores de ideias liberais no mundo, Guedes dava a entender que Bolsonaro faria um choque de desregulamentação. Como ministro, no entanto, seu desempenhou frustrou muitos apoiadores, que agora buscam uma alternativa para 2022.

Moro tem conversado com economistas de matriz semelhante em busca de ideias para um programa, mas não tem ainda alguém para chamar de seu “Posto Ipiranga”, ou um assessor principal para a área. Segundo pessoas próximas, ele está se dedicando a estudar a questão.

Em coluna na revista Crusoé publicada na sexta-feira (5), ele voltou a criticar o rompimento do teto de gastos e afirmou que “o país, sobretudo os mais pobres, pagarão um preço caro pelo populismo do governo federal”. “Sepultada a Lava Jato pelo atual governo, a próxima vítima parece ser o Plano Real. Estamos brincando na beira do abismo da deterioração institucional e econômica”, escreveu.

O MBL (Movimento Brasil Livre) é um dos grupos que têm apreciado os primeiros gestos do ex-juiz nessa área, mas também cobra mais detalhes. “Ainda precisamos ver se o Moro fala a nossa língua”, diz o deputado federal Kim Kataguiri (DEM-SP), um dos líderes nacionais do movimento.

O MBL chamou Moro para ser a principal estrela de seu congresso, que será realizado neste mês, e admite conversas para o ano que vem. “Conversar a gente conversa, agora vai depender de ele sinalizar mais para as pautas liberais, ir além do discurso de combate à corrupção, se comprometer com a reforma administrativa e a tributária”, afirma Kataguiri, que deve estar presente ao ato de filiação, junto com outros líderes do movimento.

Embora tenha achado positivo o tuíte de Moro em defesa do teto de gastos, o parlamentar afirmou que ainda é um gesto muito tímido. “Ele tem de dizer, por exemplo, de onde devemos cortar para viabilizar o Auxílio Brasil”, diz Kataguiri.

Da mesma forma, o grupo liberal Livres, que reúne políticos de diversos partidos, diz que a autoridade com que Moro trata de economia não se compara à que tem sobre assuntos da área criminal.

“No comando do Ministério da Justiça, a atitude dele estava restrita àquela área, e a gente não duvidava do compromisso dele de combate à corrupção”, diz Magno Karl, diretor-executivo do Livres. “Mas, em uma campanha presidencial, a gente tem de ver o que ele pensa sobre outros temas. As ideias são centrais para nós. Precisamos conhecer mais o Moro.”

Segundo ele, a eventual candidatura do ex-juiz certamente despertará interesse em alguns filiados ao grupo. “Vamos ter pessoas ligadas ao Livres apoiando diversas candidaturas. Claro que o Moro agregaria ao campo de alternativas à dualidade do bolsonarismo contra o lulismo. Nesse sentido, a gente recebe bem a perspectiva de ele ser candidato”, diz.

O Livres também deverá enviar uma representante ao evento de filiação, Monica Rosenberg, filha do economista Luís Paulo Rosenberg. “Moro é uma incógnita, mas a gente espera que ele defenda as liberdades individuais, como defendia antes de chancelar a candidatura do Bolsonaro. Infelizmente, o Moro deu força para aquele projeto”, afirma ela, que é ligada ao partido Novo e coordena o Livres em São Paulo.

Para o ex-presidenciável João Amoêdo (Novo), interlocutor de Moro e entusiasta da chamada terceira via, o ex-juiz seguirá a cartilha liberal se vingar como candidato. Ele diz que a receita de combate à inflação, Estado enxuto e responsabilidade fiscal é incontornável diante do quadro econômico e social.

“O próximo presidente vai receber um país bastante destroçado. A pauta da economia está muito mais relevante, vai ser preponderante. Ao mesmo tempo, acho que ele [Moro] está consciente de que não pode ser uma campanha de tema único, senão fica restrito a um nicho específico”, afirma.

Pesquisa Datafolha de setembro indicou que a saúde é considerada o principal problema do país, conforme a visão de 22% dos brasileiros. Em seguida vêm três questões interligadas: o desemprego (13%), a economia em si (13%) e a inflação (9%).

Corrupção aparece em sétimo lugar no ranking, apontada por 5% dos entrevistados. É uma inversão em relação a anos recentes, em que o assunto dominava a lista de mazelas do Brasil, segundo os levantamentos do instituto.

A pesquisa de setembro mostrou ainda que 69% dos brasileiros acham que a realidade econômica do país piorou nos últimos meses. E que, para 53% das pessoas, a situação de suas próprias finanças se agravou recentemente, o maior percentual registrado para o quesito nas sondagens desde 2015.

Valor

MSTorganiza lançamento de candidaturas a deputado em15 Estados e Distrito Federal

PT deve ser principal desaguadouro do movimento

O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que se notabilizou em 37 anos de história pela ocupação de propriedades no campo como forma de impulsionar a reforma agrária, decidiu lançar ofensiva eleitoral em 2022. A estratégia de disputar o terreno da política institucional, ao lado de outros movimentos populares, prevê lançamento de candidaturas a deputado estadual e federal em pelo menos 15 Estados, além do Distrito Federal.

Por caminhar junto ao PT desde a fundação do movimento, em 1984, o partido será o principal abrigo de seus candidatos. Há também negociações avançadas com o PSB, Psol e PCdoB. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem estimulado a iniciativa.

As articulações com outras legendas, com vistas à eleição de 2022, contudo, estão em ritmo acelerado. Há 15 dias, o presidente do PSB, Carlos Siqueira, recebeu representantes do movimento na sede do partido, em Brasília. O deputado Marcelo Freixo (PSB-RJ), candidato da legenda ao governo do Rio de Janeiro, participou da reunião.

O MST está presente em cerca de 36% dos 5.568 municípios do país, onde estão assentadas 450 mil famílias – outras 90 mil ainda estão acampadas. Considerando-se 3,07, segundo o IBGE, o número médio de pessoas por família no Brasil, o universo de brasileiros vinculados aos sem-terra soma aproximadamente 6,4 milhões de pessoas. No entanto, na Câmara dos Deputados, há apenas três deputados reconhecidamente eleitos pelo movimento: Marcon (PT-RS), João Daniel (PT-SE) e Valmir Assunção (PT-BA).

Durante a pandemia, o MST resolveu se voltar para a produção de alimentos nos assentamentos. Agora, paralelamente à articulação para as eleições, retomou as ocupações de terras. Nos últimos vinte dias, promoveu três ações nos Estados de São Paulo, Bahia e Rio Grande do Norte.

A leitura feita pelos principais formuladores do MST é que as chamadas “forças populares” encontram-se na defensiva. Avaliam que é, por essa razão, que se justifica a necessidade de uma contraofensiva no campo institucional para que a esquerda não perca espaço. “O MST sempre deixou com os partidos de esquerda a luta institucional no Congresso. Nosso foco estratégico vai continuar na mesma direção, que é a ocupação de terra para a reforma agrária, mas, agora, vamos também fazer a disputa institucional”, justifica Alexandre Conceição, um dos coordenadores nacionais do movimento.

Parte dos nomes já escalados pelo MST para concorrer a cargos eletivos em 2022 nunca disputou eleição ou sequer esteve filiado a partidos políticos. São militantes da reforma agrária e de outras áreas. No Rio, por exemplo, a principal aposta para uma vaga na Assembleia Legislativa é Marina dos Santos, ligada a Freixo.

Militante do MST desde os 14 anos, Marina nunca teve filiação partidária. Agora, está em conversas adiantadas com PT e PSB. Há 25 anos, além da organização da luta no campo, ela também atua em conjunto com movimentos sindicais. Em Campo dos Goytacazes, no norte do Rio de Janeiro, tem forte ligação com a categoria dos petroleiros.

Em Pernambuco, onde a organização sempre teve muita força política, quem deve concorrer a uma vaga de deputada estadual é Rosa Amorim, militante do Levante Popular da Juventude. Ela tem 24 anos e é filha de Jaime Amorim, dirigente histórico do MST.

No Distrito Federal, quem tentará conquistar um mandato na Câmara é Erivan Hilário. Drag queen, disputará o pleito com o codinome “Ruth Venceremos”. Ativista do MST desde os 13 anos, a artista é coordenadora educacional do movimento e uma das responsáveis por levar a pauta LGBTQIA+ aos assentamentos. Formou-se na escola do movimento e graduou-se em pedagogia.

Há também a possibilidade de lançamento de nomes mais experientes. No Rio Grande do Sul, por exemplo, o ex-deputado Frei Sergio Görgen (PT-RS), deverá tentar uma vaga na Assembleia Legislativa. A empreitada eleitoral do MST conta, ainda, com candidatos de organizações como o MPA (Movimento dos Pequenos Agricultores), o MCP (Movimento Camponês Popular), o MTD (Movimento de Trabalhadoras e Trabalhadores por Direitos), o Levante Popular da Juventude e a Consulta Popular.

O consultor do Diap (Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar) Antônio Augusto de Queiroz explica que o momento político do país, com a volta de Lula ao jogo eleitoral, contribuiu de maneira decisiva para entrada do MST na disputa. “Os movimentos cívicos da direita, que tomaram corpo em 2018, conseguiram eleger bancadas expressivas e todas são atuantes no Congresso. Essa iniciativa do MST de lançar candidaturas em grande parte do Brasil é muito interessante para o processo democrático”, avalia.

Valor

Eleitor baiano combina ACM Neto e Lula

Pesquisa Atlas feita na Bahia mostra liderança do petista e do ex-prefeito nas disputas nacional e local

Pesquisa de intenção de voto realizada na Bahia mostra que parte relevante do eleitorado combina o voto presidencial no PT e o voto para governador no DEM, apesar de os petistas controlarem politicamente o Estado desde 2006. Na disputa presidencial, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva lidera com 62% ou 63% nas simulações de primeiro turno, conforme o quadro de adversários. Na disputa pelo governo estadual, a liderança folgada é do ex-prefeito de Salvador ACM Neto, com 45%. Ele é presidente nacional do DEM, arquirrival do PT.

O levantamento foi feito pela consultoria Atlas entre os dias 30 de outubro e 5 de novembro. Com 827 respostas coletadas, a margem de erro é de 3 pontos. A pesquisa Atlas é feita pela internet. Por meio de anúncios publicitários, a consultoria dispara milhares de convites aleatoriamente para internautas da área a ser investigada. Ao clicar no convite, o eleitor é direcionado ao questionário do estudo

Dispositivos de segurança impedem que o respondente repasse a pesquisa a outras pessoas ou preencha mais de um questionário. As respostas são coletadas até que haja quantidade suficiente que se enquadre no perfil da amostra previamente desenhada pelos pesquisadores. Calibragens são feitas para corrigir falta ou excesso de representação e eventual viés de não resposta por certos grupos. Pesquisa assim só pode ser comparada com levantamento que tenha adotado a mesma metodologia. Não pode ser comparada com pesquisa por meio de entrevistas presenciais nem com estudo feito por telefone por meio de operador ou mensagem gravada.

No primeiro cenário de primeiro turno da eleição presidencial, Lula marca 63%, mais que o triplo do desempenho do presidente Jair Bolsonaro, que alcança 20%. O ex-ministro Ciro Gomes (PDT) tem 9%; o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), 1%. No segundo cenário, a consultoria testou o nome do governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSDB), no lugar de Doria. O quadro muda pouco. Lula ficou com 62%; Bolsonaro, 20%; Ciro Gomes, 9%; Leite, 3%.

O percentual de Bolsonaro não se altera em teste de segundo turno. Na simulação de uma disputa final contra Lula, o petista vence o atual presidente por 67% a 20% na Bahia. “Bolsonaro não ganha quase nada entre o primeiro e o segundo turno”, afirma o cientista político Andrei Roman, diretor do Atlas e responsável pela pesquisa. “O que costuma ser chamado de centro é muito fraco na Bahia. Ocorre então uma antecipação do segundo turno”, completa.

Um estudo anterior do Atlas sobre o potencial de candidatos da chamada terceira via mostrou que o Nordeste é a região com menor aderência da ideia “nem Lula nem Bolsonaro”, lembra Roman. Só 13% do eleitorado da região demonstra interesse por um nome alternativo.

Na disputa pelo governo da Bahia, mostra a atual pesquisa, o favoritismo do PT arrefece. Nesse caso, quem lidera isolado é o ex-prefeito de Salvador ACM Neto, com 45% dos votos totais, desempenho que lhe garantiria vitória no primeiro turno. Atrás dele aparecem o ex-governador Jaques Wagner (PT), com 27%; o ministro da Cidadania, João Roma (Republicanos), com 4%; e o ex-vereador Marcos Mendes (Psol), também com 4%.

Em simulação de segundo turno para governador, ACM Neto vence Wagner por 49% a 39%. Com 10,2 milhões de eleitores (7% do total), a Bahia é o quarto maior colégio eleitoral do país, atrás apenas de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Na eleição presidencial de 2018, o Estado foi na contramão da maior parte do país e deu vitória ao petista Fernando Haddad no primeiro e no segundo turno. Na disputa final contra Bolsonaro, o ex-prefeito de São Paulo venceu por 72,7% dos votos válidos baianos a 27,3%.

A força do PT no Estado também ficou evidente na disputa pelo governo estadual. Candidato à reeleição, o petista Rui Costa venceu no primeiro turno com 75,5% dos votos válidos. Apoiado na época por ACM Neto, o candidato Zé Ronaldo (DEM) ficou com 22,3%.

O Atlas também investigou a imagem de um grupo selecionado de personalidades políticas. Eleitores foram provocados a responder se tinham imagem positiva ou negativas de algumas figuras apresentadas. O líder em imagem positiva é o governador Rui Costa, com 63%. Ele é seguido de perto por Lula, que marcou 60% nesse quesito. ACM Neto apareceu em terceiro ligar com 58%, 12 pontos a mais que Jaques Wagner.

Os demais presidenciáveis apresentam percentuais consideravelmente menores. Ciro Gomes tem 26% de imagem positiva no Estado; Bolsonaro marca 17%; o ex-juiz e ex-ministro Sergio Moro alcança 15%; Eduardo Leite e João Doria empatam com 14%. No ranking de imagem negativa, Bolsonaro aparece em primeiro lugar com 74%. É seguido pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, com 71%, e por Sergio Moro, com 69%.

FSP (Mônica Bérgamo)

Dilma e Silvio Almeida participam de live de lançamento de livro sobre a China

O bate-papo será transmitido pelos canais do YouTube da editora Boitempo e da TV Grabois

A ex-presidente Dilma Rousseff (PT) e o professor Silvio Almeida participam da live de lançamento do livro “China: O Socialismo do Século XXI”, no dia 22. A obra, de Elias Jabbour e Alberto Gabriele, sairá pela editora Boitempo. O bate-papo será transmitido pelos canais do YouTube da editora e da TV Grabois.