Do decreto de Vargas aos R$ 1.621: 90 Anos da luta pela dignidade salarial

Entenda como novo salário mínimo de 2026 consolida retorno da política de valorização real e combate à desigualdade no Brasil

Em janeiro, o Brasil atingiu um novo marco em sua política de rendimentos com o salário mínimo fixado em R$ 1.621. O valor, que injetará cerca de R$ 81,8 bilhões na economia nacional, não é apenas um número contábil, mas o reflexo de um ciclo de retomada iniciado em 2023. Para cerca de 61,9 milhões de brasileiros, esse montante representa a fronteira entre a subsistência e o consumo básico, consolidando uma trajetória de valorização que, embora tenha enfrentado hiatos recentes, reafirma-se como o principal motor de combate à desigualdade social no país.

Este avanço ocorre exatamente 90 anos após a sanção da Lei nº 185, de 1936, que plantou a semente do salário mínimo sob o governo de Getúlio Vargas. Regulamentado em 1940, o piso nasceu para garantir necessidades fundamentais: alimentação, habitação, vestuário, higiene e transporte. Naquela época, a transição de um Brasil agroexportador para uma sociedade urbana e industrial gerou tensões. A elite agrária resistia, temendo a perda de controle sobre a mão de obra, enquanto o setor industrial via na medida uma forma de estabilização social e criação de um mercado consumidor.

A análise histórica revela que o vigor dessa política é cíclico. Ao olharmos para 2002, o cenário era drasticamente diferente: o piso nacional era de apenas R$ 200. Desde então, o Brasil viveu uma escalada nominal de 710,5%. No entanto, o diferencial reside no ganho real. Entre 2003 e 2014, o país viveu sua “era de ouro” da valorização, com reajustes que superavam consistentemente a inflação — destaque para 2006, com 13,04% de ganho acima do INPC (Índice Nacional de Preços ao Consumidor). Essa política tornou-se institucional em 2008, vinculando o aumento ao PIB (Produto Interno Bruto) e à inflação, o que permitiu um salto no poder de compra de quase 100% em duas décadas.

A retomada
Entretanto, o fôlego foi interrompido entre 2019 e 2022, período em que a política de valorização real foi abandonada, limitando os reajustes à mera reposição inflacionária. A retomada veio em 2023, restabelecendo o conceito de que o trabalhador deve participar do crescimento do país. Em 2024, o ganho real chegou a 5,64%, seguido por avanços em 2025 e agora em 2026, onde o ajuste de cerca de 2,5% acima da inflação mantém a curva ascendente, de acordo com a nota técnica do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos) divulgada em dezembro passado.

Reconhecida como uma das políticas mais relevantes de combate à pobreza e à desigualdade no país, a política de valorização do salário mínimo consolidou-se como resultado de amplo acordo social e institucional. Mais do que uma obrigação legal, o mínimo de R$ 1.621 em 2026 simboliza a persistência de um contrato social iniciado há quase um século: a ideia de que o trabalho deve, obrigatoriamente, gerar dignidade e sustento para quem o exerce.