Idosos voltam à sala de aula

Mais da metade dos alunos do Mova estão na terceira idade

Mais da metade dos alunos do Mova-ABC (Movimento de Alfabetização Regional do ABC), de São Bernardo, são idosos a cima de 60 anos. Das 950 pessoas que são alfabetizadas pelo Mova na cidade, 500 estão na terceira idade. Uma pequena parcela deles estão em um asilo na estrada do Alvarenga. 

“Tenho 83 anos de idade. São muitas as histórias para contar. Se eu não aprender a ler e escrever, essas histórias vão se perder por aí. E olha que a minha vida vale uma novela”, conta, com ar de brincadeira, Bertaelza Polaque, a filha de alemães que mora há quatro anos na Casa São Vicente de Paula, em São Bernardo.

Três meses depois que Dona Bertaelza entrou no asilo – e ela lembra exatamente “foi no dia 24 de novembro de 2004, estava chovendo muito” – chegou o Mova-ABC “Quando fiquei sabendo que iríamos ter um professor aqui, fiquei contente, desde os 12 anos não pegava em um caderno” conta a senhora que trabalhou toda sua vida “em casa de família”, como ela mesma explica.

Junto com Bertaelza, mais 25 internos comparecem as aulas do Mova, que preenche as manhãs dos idosos de segunda-feira à quinta-feira. O asilo conta com 85 internos, mas não são todos que tem condições de participar das aulas, e nem sempre os 25 alunos da turma vão as aulas. “Às vezes vem 15, às vezes vem dez. Teve uma época que só seis pessoas assistiam às aulas. Mas aí eu dei uma bronca neles e já estamos com a sala cheia outra vez”, conta a educadora Miriam Souza.

Miriam entrou para o Mova também em 2005, já preparada para dar aula aos idosos. Para a educadora e os quase 100 funcionários da Casa São Vicente de Paula, a alfabetização na terceira idade é importante não só como processo de educação, mas também para promover auto-estima, e estimular a mente. “Para eles, a rotina das aulas é fundamental. Eles são responsáveis, pontuais, sempre trazem suas pastas, fazem as lições. É gratificante ensinar para alunos tão interessados”, conta Miriam. 

Assim como Dona Bertaelza, boa parte das mulheres que participam das aulas trabalharam mais da metade de suas vidas como empregadas domésticas e não tiveram oportunidade de estudar. “Minha patroa era uma mulher que sabia das coisas, mas não tinha tempo para me ensinar nada. Depois que ela também ficou de idade e começou a ‘pegar’ as doenças de ´velho´ tive que vir para o asilo. Mas sabe, eu gosto daqui, tenho amigos”, conta Rosalina Nóbrega, a vaidosa Rosinha.

De acordo com a educadora, Rosinha é umas da melhores alunas em português, mas não se dá muito bem com os números. “Matemática é coisa de homem. A tabuada eu sei de cor, mas aquelas contas que tem que emprestar um, devolver dois, eu já me atrapalho”. Alguns frequentam as aulas para desenhar, outras para escrever histórias, outros só para ouvir.

 A única lição que passou batido por Miriam e pelos idosos é nesta quarta-feira (01/10) é o Dia Internacional do Idoso. Mas Dona Bertaelza explica a falha na memória, “em asilo, todo dia é dia de velho”.

Do ABCD MAIOR