Março de luta: Sindicato elege combate ao feminicídio como prioridade absoluta
Diante de um recorde em violência, entidade foca na defesa da vida das mulheres. Pauta de 2026 exige mobilização total da sociedade para romper ciclo de barbárie.

O mês de março, tradicionalmente marcado pelas celebrações e reivindicações do Dia Internacional da Mulher, assume em 2026 um tom de urgência para o movimento sindical. Diante de uma escalada alarmante da violência de gênero, os Metalúrgicos do ABC reafirmam que a prioridade máxima deste calendário é o combate ao feminicídio. A decisão política reflete um cenário de barbárie: o Brasil encerrou 2025 com dados estarrecedores, consolidando-se como o ano mais letal para as mulheres desde a tipificação do crime em 2015.
Para Andrea Sousa, a Nega, diretora do Sindicato, a gravidade do momento impede que a pauta se disperse por outros temas, por mais legítimos que sejam. “Poderíamos estar falando de tantos outros temas importantes — empoderamento feminino, salário igual para trabalho igual, menopausa — mas, infelizmente, precisamos priorizar a defesa da vida. Precisamos falar sobre o fim do feminicídio”, pontua a dirigente.
O diagnóstico estatístico sustenta a preocupação da entidade. O Relatório Anual de Feminicídios no Brasil 2025 revela um abismo entre os registros oficiais e a realidade das ruas. Enquanto o Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública contabilizou 1.548 mortes, a pesquisa identificou 2.149 assassinatos consumados e 4.755 tentativas. No total, 6.904 mulheres foram alvo da violência extrema, um salto de 34% em comparação a 2024.
A análise detalhada expõe o perigo doméstico: 75% dos crimes ocorrem no âmbito íntimo, praticados por companheiros ou ex-parceiros. A residência, que deveria ser um local de acolhimento, tornou-se o principal cenário das agressões (59% dos casos). “No mês de março, tudo o que pudermos fazer para dizer não à violência e pelo fim do feminicídio será prioridade. É nesse caminho que a Comissão das Mulheres Metalúrgicas do ABC vai atuar”, afirma Nega.

Mobilização e convocação
A agenda de mobilização já está em curso. Recentemente, o Sindicato uniu-se a mulheres da UFABC (Universidade Federal do ABC) em um ato para denunciar um feminicídio ocorrido em um centro comercial, simbolizando que a vigilância será constante. No dia 14 de março, um ato unificado percorrerá as sete cidades do ABC, com concentração em Diadema.
Uma das frentes mais inovadoras da campanha é o lançamento, previsto para o dia 19, de uma cartilha voltada especificamente ao público masculino. O material convoca os homens a assumirem a responsabilidade no rompimento do ciclo de violência. Para a diretora, a mudança cultural é obrigatória. “Não é possível conviver com essa realidade. Essa é uma luta que precisa ser de toda a sociedade”, defende.
O Sindicato reforça que a rede de proteção deve ser acionada imediatamente em qualquer sinal de ameaça. O Ligue 180 e o 190 são canais vitais, lembrando que o relato da vítima é suficiente para iniciar a investigação e solicitar medidas protetivas de urgência. Neste março, o compromisso é claro: transformar o luto em luta e fazer de “nenhuma mulher a menos” a regra, não a exceção.
