Trabalhadores devem interferir

O presidente do Sindicato, José Lopez Feijóo, foi um dos representantes da CUT na reunião sindical que aconteceu paralalelamente ao encontro da Alca (Área de Livre Comércio das Américas) que terminou semana passada em Miami, nos Estados Unidos. Na entrevista abaixo, reproduzimos trechos do discurso

Como era a política de FHC com relação a ALCA?
Ele preparou o Brasil conscientemente para aceitar de forma subordinada o novo bloco comercial.

O que mudou com a eleição de Lula?
O novo governo está construindo um caminho diferente, é verdade que com enormes dificuldades em função da herança maldita recebida do governo anterior, quando o mercado foi encarado com um deus todo-poderoso e o neoliberalismo levou a economia brasileira ao caos.

Como ocorre a mudança?
Na retomada da soberania nacional através de um novo tratamento das questões externas e, no plano interno, com a criação de espaços de negociação envolvendo os diversos segmentos sociais por meio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Econômico, dos Fóruns Nacionais de Competitividade ou no Fórum Nacional do Trabalho, por exemplo.

As alterações na política externa são ainda maiores, não?
Sim. Vão desde a política de integração entre as nações em desenvolvimento no Mercosul e de outros países da América do Sul até a realização em conjunto de obras de infra-estrutura nos países vizinhos com o apoio do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), que é do governo.

E mais longe?
Nas fronteiras distantes, abrangem desde a recente visita a África e a política de ampliar as relações com a Índia, China e Rússia, até a postura firme na reunião da OMC (Organização Mundial do Comércio), em Cancún, que alguns entenderam de forma errada como intransigente, quando na verdade foi uma defesa legítima dos interesses dos países em desenvolvimento.

A CUT defende as posições do governo com relação a Alca?
O debate sobre a Alca acontece em outro nível. Ele não é apenas sobre uma área livre de comércio em que os povos ficam prisioneiros dos interesses das grandes multinacionais e de sua capacidade de promover chantagem social contra trabalhadores e nações. É um espaço onde deve acontecer uma política de integração e inclusão social, capaz de expandir os mercados nacionais, combater a pobreza visando seu fim e a construção de um comércio justo entre os países.

Qual o papel do movimento sindical neste ambiente?
Forçar o debate social no interior da Alca, pois é um assunto importante demais para ser discutido entre quatro paredes só por corporações empresariais e governos. Precisamos impor uma carta básica de direitos dos trabalhadores com base nas normas da Organização Internacional do Trabalho que contenha direito de livre organização sindical desde o local de trabalho, redução da jornada de trabalho, melhores salários e a criação de Comitês Internacionais de Trabalhadores, além do respeito aos direitos humanos.

Gostaria de destacar algo sobre a reunião?
O imenso aparato de repressão contra os manifestantes montado pela polícia norte-americana. Foi uma demonstração de força desnecessária diante de atos pacíficos que pretenderam marcar nossa posição e não impedir o encontro. Para ter-se uma idéia do tamanho da paranóia, basta dizer que havia tanto policiais quanto ativistas políticos em Miami.